A vida raramente segue o planejado; veja como se tornar melhor em se adaptar
A vaga do emprego vai dar certo? O que os exames médicos vão mostrar? E o que significa aquele e-mail vago e ameaçador que o chefe enviou? A incerteza e a mudança sempre foram difíceis de lidar, mas para algumas pessoas mais do que para outras — principalmente, com as rápidas mudanças na sociedade, na tecnologia e em outros setores.
Neste cenário, aprender a lidar com indecisões ou momentos imprecisos é uma habilidade fundamental para a qualidade de vida. Além disso, todas as pessoas podem se beneficiar ao se sentir mais à vontade com a incerteza.
Professor de psicologia da Universidade de Regina, no Canadá, Nick Carleton explica que o desconforto com a incerteza existe em um espectro e muda conforme as circunstâncias. Uma caixa fechada pode parecer interessante quando está rodeada de balões, amigos e cheiro de bolo. Mas, abandonada em uma estação de metrô, a sensação é bem diferente.
Um certo grau de cautela faz sentido do ponto de vista evolutivo. “As pessoas que adoravam a incerteza provavelmente entraram em cavernas onde não deviam e não conseguiram se reproduzir”, diz Nick. “Por outro lado, também não se pode ter muito medo da incerteza, porque as pessoas que nunca saíram de sua zona de conforto provavelmente morreram de fome.”
Pratique viver sem uma resposta
Quando a linha entre um desconforto geral com a incerteza se transforma em ansiedade que interfere na vida diária, é hora de procurar ajuda profissional. O tratamento pode incluir experimentos comportamentais que expõem a pessoa à incerteza de uma forma segura.
O professor de psicologia da Universidade de Quebec, no Canadá, Michel Dugas, cita como exemplo o caso clínico de uma de suas pacientes extremamente preocupada com as notas. Ela foi orientada a esperar 48 horas antes de verificar o resultado de uma prova que havia sido publicada online.
No início, o sofrimento foi intenso, mas diminuiu consideravelmente no segundo dia. “A aprendizagem só acontece de verdade quando você vivencia aquilo que teme”, afirma Dugas, que, além de psicólogo clínico, é pesquisador com foco em transtornos de ansiedade.
Experimentos menores para lidar com a incerteza podem incluir deixar o celular em casa por um breve período ou tomar uma decisão sem grandes consequências sem pedir a opinião de outras pessoas.
Existem algumas estratégias que podem ser usadas diante de uma tomada de decisão. Quando surge um problema real, a dica é resistir à tentação de eliminar todas as incógnitas. Quando os planos de uma viagem são interrompidos, por exemplo, pergunte-se se o problema está sob seu controle e se pode ser resolvido.
Ao ter as respostas em mente, se possível, reduza as possibilidades a três ou quatro opções razoáveis, pondere as vantagens e desvantagens de cada uma e tome uma decisão. Depois, resista à tentação de ficar reconsiderando — pode não haver uma escolha perfeita.
Quando nada mais pode ser feito, é preciso mudar o foco da resolução de problemas para a aceitação. A atenção plena ou uma atividade envolvente podem redirecionar a atenção de pensamentos repetitivos para o presente.
Fique aberto às oportunidades
Aceitar a incerteza não significa ignorar o perigo, suprimir a decepção ou insistir que todo revés é positivo. A proeminente budista americana Pema Chödrön trata do tema em seu livro “Confortável com a Incerteza”.
De acordo com ela, os praticantes são guerreiros da não agressão que aceitam que nunca podem saber o que acontecerá a seguir. “Nunca podemos evitar a incerteza”, escreve Pema. “Esse não saber faz parte da aventura.”
O professor Dugas acrescenta: “Se você não for capaz de lidar com o fato de que o universo é incerto, terá muita dificuldade em ser feliz e ter uma boa qualidade de vida.”
Principais estratégias para o dia a dia
Aceitar o que está fora do alcance: tentar controlar cada detalhe do futuro gera cansaço mental, sendo uma das principais fontes de ansiedade e esgotamento. É fundamental reconhecer que as mudanças fazem parte da vida.
Separar os fatos de hipóteses: a ansiedade adora tratar suposições catastróficas como certezas absolutas, gerando sofrimento por problemas que ainda não existem. Pergunte-se: “Isso é um problema real que está acontecendo agora ou um cenário trágico que minha mente criou?”
Focar no círculo de controle: divida as preocupações entre o que pode ser mudado dependendo de sua própria atitude e o que não pode, como, por exemplo, a decisão de terceiros, o tempo, os imprevistos. Quando se assume que não tem poder sobre o ambiente ou sobre os outros, a ansiedade perde força e a tendência é deixar de lutar contra o impossível.
Dar um pequeno passo prático: o cérebro sobrecarregado com um volume enorme de incertezas tende a travar. Quando a indefinição paralisa, faça uma microtarefa administrável (organizar relatórios, mandar um e-mail, dar uma volta) para recuperar a sensação de movimento.
Pratique a atenção plena (Mindfulness): essa é uma das maneiras mais rápidas e eficazes de reduzir a ansiedade e acalmar o sistema nervoso em momentos de incerteza. Use a respiração profunda ou foque nos sentidos do momento presente para acalmar quando entrar em modo de alerta.
Fonte: com informações de Albert Stumm para a Associated Press.






