Resiliência significa integrar experiências difíceis à sua história, não ignorá-las
Na cultura popular, a resiliência é frequentemente associada à garra, à resistência ou a um otimismo inabalável. As pessoas celebram o guerreiro, o lutador, o sobrevivente triunfante. Mas, para pesquisadores no assunto, a resiliência é evidenciada como algo muito mais complexo, genuíno e humano.
Com mais de duas décadas estudando o tema, Keith Bellizzi diz que a humanidade vive uma época de esgotamento generalizado, onde a pressão cultural para parecer forte muitas vezes deixa as pessoas sofrendo em silêncio.
“A insistência na resiliência e no otimismo implacável pode ser contraproducente, fazendo com que as pessoas se sintam inadequadas quando inevitavelmente sentirem dor”, comenta Keith, que é professor de Gerontologia na Universidade de Connecticut.
Sob outra perspectiva, resiliência não significa uma pessoa voltar a ser quem era antes de uma doença, de uma perda ou de um trauma. Significa se tornar alguém novo: alguém que carrega a cicatriz, se lembra da perda e ainda escolhe se envolver com a vida.
“Em outras palavras, resiliência não significa apagar a dor e o sofrimento. Significa aprender a integrar experiências difíceis em uma vida que continua a seguir em frente”, diz.
Junto a outros pesquisadores, Keith analisou diversos casos envolvendo a resiliência, observando que as pessoas que processam ativamente uma perda, em vez de reprimi-la, demonstram melhor adaptação a longo prazo.
“Suprimir os sentimentos negativos pode proporcionar alívio a curto prazo, mas, com o tempo, está associado a maior estresse para o corpo e mais dificuldade de adaptação”, afirma.
Práticas que ajudam a construir resiliência
Se a resiliência tem a ver com integração em vez de resistência e recuperação rápida, como cultivá-la? Pesquisas nas áreas de psicologia, neurociência e doenças crônicas apontam para diversas estratégias baseadas em evidências:
Permita a complexidade emocional: pessoas resilientes não são incessantemente positivas. Elas dão espaço a toda a gama de emoções, como gratidão e tristeza, esperança e medo. Prestar atenção aos seus sentimentos por meio de estratégias como a escrita reflexiva ou a psicoterapia tem sido associado a uma melhor adaptação psicológica.
Construa uma narrativa coerente: os seres humanos são contadores de histórias. O trauma pode destruir o senso de identidade de alguém, mas construir uma narrativa que reconheça a perda, ao mesmo tempo que identifica a continuidade e o crescimento, apoia a adaptação. O objetivo não é transformar o sofrimento em algo positivo, mas situá-lo dentro de uma história de vida mais ampla. Por exemplo, alguém poderia dizer: “O câncer atrapalhou meus planos e mudou meu corpo, mas também esclareceu o que importa para mim e como quero seguir em frente.”
Apoie-se na conexão: o isolamento intensifica o sofrimento. O apoio social é um dos indicadores mais fortes de quão bem as pessoas conseguem lidar e seguir em frente após uma doença ou trauma. Procurar um grupo de apoio permite trocar experiências, vivências e informações com pessoas que passam por desafios semelhantes.
Pratique pausas deliberadas: dedique-se intencionalmente a respirar. A atenção plena e a solitude contemplativa podem fortalecer sua capacidade de regular as emoções e se recuperar do estresse. Pausar permite que a experiência seja processada em vez de evitada.
Expandir a identidade: doenças, perdas e traumas remodelam a forma como uma pessoa se vê. Em vez de se apegar a quem era, a resiliência muitas vezes envolve expandir quem está se tornando. Pesquisas sobre crescimento pós-traumático mostram que as pessoas frequentemente relatam relacionamentos mais profundos, prioridades mais claras e um propósito renovado – não porque o trauma tenha sido bom, mas porque forçou uma reavaliação.
Fonte: com informações de Keith Bellizzi para o The Conversation.
Keith M. Bellizzi, PhD, MPH, é professor do Departamento de Desenvolvimento Humano e Ciências da Família da Universidade de Connecticut.






