Tribo Quântica

o seu portal holístico

Desinformação em saúde pode custar vidas; saiba como não ser enganado

O fim da pandemia não freou a desinformação em saúde no Brasil. O fenômeno deixou de ser apenas um debate digital para se consolidar como um risco clínico real, capaz de custar vidas. Antigas fórmulas — como promessas de cura e distorções científicas — ganharam fôlego renovado em novos formatos: vídeos manipulados, deepfakes, anúncios pagos e ofertas comerciais disfarçadas de jornalismo.

É o que revela o “Raio-X da Desinformação em Saúde”, relatório inédito do Observatório Lupa. A análise foi feita no próprio acervo de checagens da agência, publicadas entre 2017 e junho de 2026. O estudo contou com apoio da Afya, maior ecossistema de educação e soluções para prática médica no país.

Nesse período, foram analisadas 764 alegações sobre saúde, das quais 667 (87%) eram totalmente falsas. O volume de mentiras disparou durante a pandemia: entre 2020 e 2021, a agência verificou 452 alegações virais falsas ou distorcidas — um salto de quase dez vezes em comparação com a soma dos três anos anteriores.

Com base na checagem, fica evidente que a pandemia ampliou a escala da desinformação, além de reforçar estratégias que já circulavam antes da crise sanitária. “A mentira mudou de assunto, incorporou novas ferramentas, mas preservou mecanismos de persuasão muito parecidos”, diz Maiquel Rosauro, pesquisador responsável pelo estudo.

O uso da falsa autoridade médica ou científica é a principal estratégia para tornar conteúdos enganosos mais convincentes, sendo identificada em 21% dos casos. Depois vem o medo e a linguagem alarmista (17%), a distorção de estudos e dados (15%) e a oferta de soluções simples para problemas complexos (12%).

Os internautas devem estar atentos pelo fato de que a desinformação também se apropria da credibilidade da ciência. Declarações verdadeiras podem ser retiradas de contexto, limitações de pesquisas podem ser omitidas e falas que nunca existiram podem ser atribuídas a especialistas.

O uso do medo também ganhou força. Alegações desse tipo costumam associar vacinas, tratamentos ou produtos a consequências graves, como câncer, infertilidade ou morte.

(foto: Magnific)

O WhatsApp aparece como meio predominante em que esses conteúdos inverídicos circulam, seguido de longe pelas redes sociais Facebook e Instagram, além de alguns sites. O uso de textos aparece em praticamente todos os conteúdos analisados — com uma associação mais frequente entre texto e vídeo.

Isso ocorre porque, muitas vezes, não é a imagem ou o vídeo que contém a mentira. Uma foto verdadeira pode ganhar uma legenda falsa; um vídeo autêntico pode ser apresentado como registro de outro episódio; e um áudio pode ser falsamente atribuído a um médico. Ou seja, o texto direciona a interpretação, seja em legendas, títulos, comentários ou mensagens de encaminhamento.

“Hoje, o profissional de saúde precisa estar preparado não apenas para diagnosticar e tratar, mas também para ajudar o paciente a navegar em um ambiente de excesso de informações, muitas delas sem respaldo científico”, Gustavo Meirelles, vice-presidente Médico e de Relações Institucionais da Afya.

Estratégias para não ser enganado

Para se proteger e não ser enganado por falsas promessas ou boatos alarmistas, é preciso adotar uma postura crítica e seguir alguns passos práticos de checagem.

Verifique a autoria: desconfie de mensagens assinadas por “médicos renomados” sem o número do CRM (Conselho Regional de Medicina) ou que usem nomes de instituições de saúde tradicionais, como a Fiocruz, de forma genérica. Busque o nome do profissional no site do Conselho Federal de Medicina para ver se ele existe e se tem aquela especialidade.

Cheque a data da publicação: muitos boatos de saúde são conteúdos antigos, fora de contexto ou que já foram desmentidos há anos, mas voltam a circular em momentos de surtos de doenças (como dengue ou vacinação).

Fique atento à linguagem: desconfie imediatamente se o texto ou vídeo usar termos como “cura milagrosa”, “segredo escondido pela indústria”, “100% natural e sem efeitos colaterais” ou se abusar de letras maiúsculas e pontos de exclamação para causar pânico. Ciência séria não usa tom alarmista.

Consulte veículos de checagem e órgãos oficiais: jogue o tema no Google ao lado da palavra “falso” ou “boato”. Acesse portais de agências especializadas (como a Agência Lupa ou Aos Fatos) ou a página oficial de esclarecimentos do Ministério da Saúde. Se for mentira, é muito provável que já exista um desmentido publicado.

Analise o formato do conteúdo: atualmente, golpistas usam inteligência artificial para clonar a voz de médicos conhecidos em vídeos (deepfakes) e criam sites falsos que imitam portais de notícias reais para vender suplementos. Repare se os movimentos da boca do médico combinam perfeitamente com o áudio e olhe o link (URL) do site para ver se é o endereço oficial do veículo de imprensa.

Lembre-se da regra de ouro: se o conteúdo pede para ser compartilhado com urgência “antes que saia do ar”, pare, não repasse e cheque antes.

Para a fundadora e gerente de Inovação e Formação da Agência Lupa, Cristina Tardáguila, um dos principais desafios da desinformação em saúde é que ela se apropria da linguagem e da autoridade de médicos, pesquisadores e instituições para parecer legítima. “Não basta dizer que uma informação é falsa: é preciso ajudar as pessoas a reconhecer como essa manipulação é construída”, diz.

Fonte: com informações do Saúde Debate.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *