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Supercentenários brasileiros levam vida simples; miscigenação pode explicar ‘boa genética’

Enquanto empresas de tecnologia investem bilhões em tentativas de prolongar a vida, a resposta pode muito bem estar no Brasil. Pesquisas recentes sugerem que o país possui uma das maiores concentrações de supercentenários do mundo – um fato impressionante em uma nação conhecida pela desigualdade e instabilidade econômica e social.

Ao mesmo tempo, no Vale do Silício, bilionários gastam fortunas tentando driblar o envelhecimento. Figuras como o empresário americano Bryan Johnson se submetem a regimes extremos — exames de sangue, suplementos, dietas rigorosas, sono estritamente controlado — tudo em busca de uma vida mais longa.

No Brasil, a abordagem não poderia ser mais diferente. Muitas pessoas atingem idades extraordinárias por meio de algo menos artificial, menos controlado e talvez mais revelador: uma vida simples. A ciência tenta descobrir o que esses supercentenários brasileiros podem ensinar ao resto do mundo sobre como ter vidas mais longas e saudáveis.

Há mais de duas décadas, a professora Mayana Zatz estuda esse fenômeno. Na Universidade de São Paulo, ela e sua equipe reuniram um grupo de quase 200 centenários, incluindo mais de 20 supercentenários com mais de 110 anos.

“Ainda estamos coletando dados, ainda tentando entender”, diz. “Mas já estamos vendo alguns padrões muito interessantes.” Um deles é o gênero. Cerca de 70% dos centenários do Brasil são mulheres. Outro é físico: muitas dessas mulheres são notavelmente baixas. “Todas as nossas centenárias são bem baixinhas”, afirma Zatz.

Pode haver uma explicação biológica. Corpos menores, sugere Zatz, podem exigir menos energia, sofrer menos divisões celulares e apresentar menos danos cumulativos ao longo do tempo.

Miscigenação

Mas, além disso, a história se aprofunda no passado do Brasil, que é, geneticamente falando, uma das populações mais miscigenadas do planeta. Após a colonização portuguesa no século XVI, milhões de africanos escravizados foram trazidos à força para o país.

Ao longo dos séculos seguintes, ondas de imigração chegaram do sul da Europa — particularmente da Itália, Espanha e Alemanha —, bem como de uma das maiores diásporas japonesas fora do Japão.

O resultado é um vasto mosaico genético estratificado: ascendência indígena, europeia, africana e asiática, frequentemente combinadas em um único indivíduo. Isso aumenta as chances de reunir combinações de genes ligados à resiliência, à força imunológica e ao reparo celular.

(foto: Magnific)

“Acreditamos que diferentes populações podem carregar diferentes variantes genéticas protetoras”, explica Zatz. “E no Brasil, as pessoas são muito miscigenadas. Então, uma pessoa pode ter a sorte de herdar várias dessas variantes protetoras juntas.”

Sua equipe agora está mapeando esses padrões, analisando a ancestralidade juntamente com a longevidade, buscando o que ela chama de “genes protetores”. Mas, mesmo aqui, não existe um modelo único.

Os cidadãos mais longevos do Brasil não seguem dietas rigorosas. Não evitam necessariamente o álcool. Não estão confinados a ambientes intocados. Na verdade, muitos vêm de regiões remotas ou carentes, onde o acesso à medicina moderna tem sido historicamente limitado.

“Nos concentramos muito nas pessoas que vivem longe dos serviços de saúde”, explica Zatz. “Porque são essas que sobreviveram sem vacinas, sem tratamento. Elas foram as mais fortes desde o início.”

No interior do Brasil, as famílias costumavam ter 10 ou 12 filhos, diz ela — mas apenas alguns sobreviviam até a idade adulta. Aqueles que sobreviviam talvez já tivessem uma predisposição biológica.

Some-se a isso uma infância praticamente livre de alimentos ultraprocessados ​​e uma vida inteira de atividade física — caminhadas longas, trabalho com o corpo — e um quadro começa a surgir: não apenas bons genes, mas uma espécie de seleção natural moldada pelo ambiente.

Hábitos desafiam as expectativas

Contudo, nem todos os casos são familiares. Apenas cerca de 20 a 30% dos centenários no estudo têm parentes que também atingiram idades extremas. E muitos de seus hábitos desafiam as expectativas.

Uma participante do estudo, a Irmã Inah, que viveu até os 116 anos e já foi considerada a pessoa mais velha do mundo, comia “de tudo” – exceto bananas. Mesmo aos 116 anos, sua mente era extremamente lúcida. Durante uma visita, ela perguntou cuidadosamente como se escrevia o nome de Zatz antes de escrevê-lo ela mesma, com a mão firme.

Essas histórias desafiam a ideia de que a longevidade provém de disciplina rigorosa. “Nossos centenários comem de tudo”, diz a professora. O que cria um contraste incômodo com a indústria da longevidade que floresce entre os ultra-ricos.

(foto: Reprodução / Guinness World Records)

Natural de São Francisco de Assis (RS), a freira e professora Inah Canabarro Lucas foi a pessoa mais velha do mundo entre 29 de dezembro de 2024 até sua morte, em 30 de abril de 2025, aos 116 anos e 326 dias.

A busca pela juventude eterna em lugares como a Califórnia, nos Estados Unidos, se baseia no controle — medindo, monitorando e otimizando cada processo biológico. Mas também é implacável, de alto custo e, sem dúvida, estressante.

No Brasil, a longevidade parece menos uma questão de otimização e mais de adaptação. Isso não significa que o estilo de vida não importe. “O envelhecimento saudável não depende apenas da genética”, afirma o professor Cesar de Oliveira, do University College London. “Depende também do ambiente, do comportamento e da vida social.”

E, nesse aspecto, o Brasil oferece pistas importantes. O movimento é constante e informal. A comida é simples e, em grande parte, não processada — com arroz e feijão como base. O café é frequente, social, integrado ao dia a dia. Mas talvez o mais importante seja a comunidade.

O Brasil é um país em que a vida acontece coletivamente. As famílias permanecem unidas, muitas vezes através de gerações. Mesmo nas cidades, a interação social é constante — na rua, na praia, em cafés e em casa. Para Zatz, esse tecido cultural pode desempenhar um papel importante. “Os brasileiros são otimistas”, diz. “Mesmo com todos os problemas, as pessoas fazem piadas. Elas riem”, conclui a professora.

Fonte: com informações de Gordon Thomson para o Positive News.

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