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Conheça os povos mais isolados do mundo; alguns grupos vivem no Brasil

Pesquisadores e indigenistas estimam que pelo menos 196 grupos indígenas vivem “isolados” em todo o mundo, principalmente em 10 países da América do Sul, Ásia e Pacífico, incluindo o Brasil. Esses povos evitam o contato com o restante da sociedade para garantir sua sobrevivência — uma dessas etnias, inclusive, chega a apagar os próprios rastros para não ser encontrada.

Embora seja difícil afirmar quais são os indígenas mais isolados da Terra, existem alguns candidatos para isso. Eles habitam diversos ambientes, desde ilhas a desertos e as densas florestas que delimitam a bacia amazônica.

Esses grupos têm diferentes níveis de contato com o mundo exterior. Enquanto alguns têm apenas encontros esporádicos com povos indígenas vizinhos, outros encontram pessoas de fora com mais frequência. Isso, às vezes contra a sua vontade, devido à exploração madeireira, agricultura e mineração que invadem cada vez mais suas terras.

A Survival International é uma organização não-governamental (ONG) global fundada em 1969 que atua na defesa dos direitos dos povos indígenas, tribais e isolados em todo o mundo. Os integrantes da organização estimam que 95% dos povos “não contatados” e “isolados” vivem na Bacia Amazônica.

Entre esses, está o grupo indígena chamado Kawahiva, que vive no Brasil, mais especificamente entre o extremo norte de Mato Grosso e o sul do Amazonas. São caçadores-coletores nômades que dependem da floresta amazônica para se alimentar e construir abrigos temporários chamados de tapiris.

Esse grupo conseguiu evitar o contato externo com tanto sucesso que sua existência é conhecida apenas por meio de vestígios e encontros fortuitos. O primeiro registro visual ocorreu em 2011 pelas mãos de Jair Candor, um dos mais importantes e experientes indigenistas e sertanistas do país.

O vídeo, que mostra cerca de nove indivíduos caminhando na mata, foi divulgado mundialmente em 2013. Novas imagens raras gravadas por câmeras de monitoramento em 2021 comprovaram que o grupo continua resistindo isolado na floresta. Muito pouco se sabe sobre eles, inclusive a forma exata como se autodenominam.

(imagem: Jair Candor / Funai)

Amazônia peruana

Outro grupo que se destaca são os Kakataibo, um povo da floresta na bacia do Aguaytia, parte da Amazônia no centro do Peru. Os Kakataibo são raramente encontrados, mesmo por outros povos indígenas. Na verdade, estão tão determinados a não serem encontrados que apagam suas pegadas com a terra.

“Sabemos que esse isolamento é uma estratégia de proteção que eles adotaram”, precisamente porque tiveram contato com o mundo exterior e essa experiência não foi positiva, explica Beatriz Huertas, antropóloga e integrante da Rainforest Foundation Norway, uma ONG global dedicada à preservação das florestas tropicais e dos direitos legais de seus habitantes.

Outro grupo proeminente e extremamente isolado é o dos Mashco Piro, das florestas remotas do Peru, que se acredita constituírem o maior grupo de povos isolados do mundo, com cerca de 750 indivíduos.

Alguns indivíduos desse grupo são descendentes de pessoas escravizadas para trabalhar em plantações de seringueiras na Amazônia no século XIX, mas que escaparam para o interior das florestas, onde permaneceram desde então, evitando o contato com o mundo exterior.

Ilha Sentinela do Norte

Na Índia, um pequeno grupo de indígenas vive totalmente isolado na Ilha Sentinela do Norte, no arquipélago de Andaman e Nicobar. Chamados de sentineleses, os antropólogos nem sequer sabem ao certo como se autodenominam — o nome deriva da ilha de cerca de 60 quilômetros quadrados.

Acredita-se que os sentineleses habitam o local há até 55.000 anos e são descendentes diretos dos primeiros humanos a migrar da África. Eles levam um estilo de vida de caçadores-coletores e pescam ao longo da costa, utilizando canoas elegantes esculpidas à mão.

A Survival International estima que o grupo inclua entre 50 e 150 pessoas, embora a dificuldade de acesso ao grupo torne quase impossível contá-los. Além do isolamento da ilha, o contato é ainda mais difícil porque os ilhéus o rejeitam.

(Imagem Reprodução / Survival International)

Sabe-se que a comunidade atira flecha em barcos que se aproximam e em helicópteros que sobrevoam a área. Apenas um punhado de forasteiros já pisou na ilha, e a lei indígena agora proíbe viagens em um raio de 5 km da ilha para a proteção de ambas as partes.

Os ilhéus são vulneráveis ​​a doenças trazidas por forasteiros, e os visitantes correm o risco de serem atacados. Os sentineleses já atiraram e mataram pelo menos três pessoas, incluindo um missionário chamado John Allen Chau, que viajou ilegalmente para a ilha em 2018.

Contato forçado

Alguns pesquisadores argumentam que esses grupos devem ser contatados para melhor protegê-los. Mas organizações como a Survival International contestam, afirmando que um longo histórico de contato forçado demonstra, em última análise, causar mais danos do que benefícios para esses povos, sua segurança e sua sobrevivência.

Os povos indígenas têm o direito humano à autodeterminação, conforme afirmado pelas Nações Unidas. Então, esses grupos expressam claramente esse direito ao buscarem contato quando desejam se associar a outros e ao se isolarem quando querem ficar sozinhos.

Em muitos casos, o passado poderia explicar por que desejariam evitar o mundo exterior. Os próprios sentineleses tiveram um encontro histórico com os colonizadores britânicos no século XIX. Na época, alguns foram sequestrados, infectados por doenças e morreram — isso pode ter moldado sua cautela em relação ao mundo exterior.

Para o professor da Universidade de Waterloo, no Canadá, Simron Singh, outro mal-entendido frequente é que esses grupos desejariam se conectar se soubessem mais sobre os benefícios do mundo exterior. Singh trabalhou com o povo nicobarês das Ilhas Nicobar, que não rejeitou completamente o contato como seus vizinhos sentineleses, e descobriu que, no caso deles, isso não é verdade.

Conforme o professor, os nicobareses estão cientes das guerras e conflitos além da ilha, e isso moldou sua percepção de que o mundo exterior é “perigoso e incivilizado”. “Não é que eles não tenham a opção [de buscar contato]… Não é nenhum bicho de sete cabeças entrar num barco e navegar para algum lugar”, diz. “É uma escolha não se conectar.”

Fonte: com informações de Emma Bryce para a Live Science.

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