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Criança faz birra para manipular os pais? A resposta pode te surpreender

A cena é conhecida: a criança ouve um “não”, começa a chorar, gritar ou se jogar no chão. Ao redor, surgem olhares e comentários: “É manha, está manipulando os pais.” Para quem cuida, muitas vezes vem outra pergunta: onde foi que eu errei?

Na maioria das vezes, porém, essa não é a melhor maneira de compreender uma birra — geralmente, costuma ser uma manifestação de desregulação emocional. “Por alguns minutos, aquilo que a criança sente é maior do que sua capacidade de organizar e controlar a própria reação”, explica o psiquiatra Ricardo Akiyoshi Nakamura.

Na infância, emoções como raiva, medo e frustração podem ser muito intensas, enquanto habilidades como esperar, tolerar um “não”, mudar de plano, colocar sentimentos em palavras e controlar impulsos ainda estão se desenvolvendo. “É como se o ‘acelerador’ emocional já funcionasse muito bem, enquanto os ‘freios’ ainda estivessem sendo aperfeiçoados”, exemplifica o psiquiatra.

Quando a frustração ultrapassa essa capacidade de regulação, a criança pode transbordar. A birra, portanto, muitas vezes é uma forma de comunicar pelo comportamento aquilo que ela ainda não consegue organizar ou dizer em palavras.

Birra, aprendizado e a ideia de manipulação

Isso significa que uma criança nunca pode aprender a usar a birra para conseguir algo? Não. Se, repetidamente, uma explosão faz com que um limite seja retirado, a criança pode aprender que aquele comportamento produz determinado resultado.

Mas, conforme Ricardo, isso é diferente de imaginar que uma criança pequena, no auge de uma crise, esteja friamente planejando manipular os adultos. “Um comportamento pode ser aprendido sem ter sido planejado como manipulação.”

Acolher não é ceder: como ajudar na hora da crise

O psiquiatra explica que as birras são muito comuns nos primeiros anos de vida e tendem a diminuir conforme amadurecem a linguagem, o controle dos impulsos e a capacidade de lidar com frustrações.

Antes de conseguir se acalmar sozinha, porém, a criança frequentemente depende da corregulação: a presença de um adulto que a ajude a atravessar aquela emoção sem aumentar ainda mais a intensidade da crise.

É por isso que acolher não significa ceder. Um adulto pode dizer: “Eu sei que você ficou muito bravo porque queria continuar brincando, mas agora precisamos ir embora.” O sentimento é reconhecido, mas o limite permanece. A emoção pode ser acolhida sem que a regra desapareça.

Depois que a crise termina, ajudar a criança a nomear o que aconteceu — “você ficou bravo porque queria ficar no parque” — contribui para que, pouco a pouco, ela desenvolva outras formas de reconhecer e expressar aquilo que sente.

Talvez, portanto, a pergunta mais útil diante de uma birra não seja apenas “como faço isso parar?”, mas também: “o que esta criança ainda não está conseguindo administrar?”

Essa mudança de olhar não significa considerar toda birra normal nem deixar de estabelecer limites. Significa compreender que, muitas vezes, por trás de uma explosão, não há uma criança “má” ou pais que fracassaram, mas um cérebro em desenvolvimento aprendendo uma tarefa difícil: sentir emoções intensas sem ser dominado por elas.

Quando as crises são muito frequentes, prolongadas, intensas ou prejudicam a vida da criança e da família, nesses casos merecem um olhar mais cuidadoso, com a ajuda de um profissional qualificado para avaliação.

Fonte: com informações de Ricardo Akiyoshi Nakamura para a Brazil Health.

Ricardo Akiyoshi Nakamura, CRM 104150, RQE 126131, RQE 1261311: psiquiatra geral e da infância e adolescência.

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