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Por que sempre sobra “espaço” para a sobremesa?

Você já se perguntou por que, mesmo após comer uma refeição que promove saciedade, o apetite por alimentos doces frequentemente permanece? Ainda que o organismo tenha reconhecido que recebeu alimentos suficientes para atender às necessidades energéticas, a refeição aparenta estar incompleta sem a sobremesa.

Conforme a nutricionista Kimberly Belluco Camargo, esse fenômeno está menos ligado ao estômago e mais ao cérebro, sugerindo que a sobremesa não está associada apenas a aspectos culturais e psicológicos, mas também a sistemas neurais relacionados ao prazer e à recompensa.

Para compreender melhor esse chamado “misterioso compartimento da sobremesa”, é necessário entender alguns conceitos, como os diferentes tipos de fome descritos na literatura. Entre os mais citados estão três tipos.

Fome homeostática: está relacionada à fome fisiológica, caracterizada por uma necessidade energética real e regulada por hormônios como a grelina, a leptina e a insulina.

Fome hedônica: motivada principalmente pelos aspectos sensoriais do alimento, como paladar, cheiro e aparência, não estando associada às necessidades energéticas, mas ao prazer, estimulando os sistemas de recompensa por meio da liberação de dopamina, endocanabinoides e opioides.

Fome emocional: embora relacionada à fome hedônica, está fortemente vinculada às emoções, ocorrendo quando o indivíduo utiliza o alimento como forma de lidar ou mascarar estados emocionais.

(foto: Drobotdean / Freepik)

Hábito e ambiente

Com base nos dados do World Obesity Atlas (Atlas Mundial da Obesidade), Kimberly ressalta que 68% dos adultos brasileiros apresentam excesso de peso — sendo 31% classificados como obesos. As projeções sugerem que metade da população adulta pode ser classificada como obesa até 2030.

Desse modo, considerando o aumento do sobrepeso e da obesidade como problemas de saúde de relevância global, torna-se fundamental conhecer os fatores que influenciam o comportamento alimentar e os sinais de saciedade.

“Principalmente porque esse problema se relaciona ao desequilíbrio entre ingestão alimentar e gasto energético”, diz a nutricionista.

De acordo com ela, uma revisão da literatura nutricional observou que quase metade (44,9%) dos indivíduos com sobrepeso ou obesidade apresentava comportamentos relacionados à fome emocional, associando essa forma de alimentação ao aumento do peso corporal.

Em 2024, um estudioso e colaboradores encontraram uma associação positiva e significativa entre a fome hedônica e o índice de massa corporal, enfatizando que mecanismos motivacionais do comer podem contribuir para o aumento do peso.

Além disso, o ambiente no qual o indivíduo está inserido, bem como a ampla disponibilidade de alimentos ultraprocessados e altamente palatáveis, contribui para esse cenário.

Em contrapartida, talvez o problema não esteja na sobremesa em si, mas na quantidade, na frequência e na forma como ela é inserida na rotina alimentar. “Muitas vezes, ocorre uma resposta automática ao impulso de consumir um doce, mais por hábito do que por desejo real”, diz Kimberly.

Em síntese, o chamado “espaço para a sobremesa” não representa ausência de saciedade, mas a coexistência de diferentes formas de fome. Reconhecer esse fenômeno pode ser mais produtivo do que combatê-lo, permitindo uma relação mais consciente com o alimento e com os próprios sinais do corpo.

Fonte: com informações de Kimberly Belluco Camargo para a Brazil Health.

Kimberly Belluco Camargo: nutricionista especializada em Nutrição, Metabolismo e Fisiologia do Exercício; mestra em Educação Física e doutoranda em Ciências da Nutrição e do Esporte e Metabolismo; docente do curso de Nutrição da Uninter.

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