História dos antepassados pode influenciar emoções e sintomas no presente
Por Dorli Kamkhagi
Quando nasce uma criança, ela já chega a uma história familiar que existia antes dela. Todos passamos a integrar uma cadeia de gerações formada por experiências, memórias, valores e acontecimentos vividos por pais, avós e outros antepassados. Dessa forma, grande parte do nosso mundo emocional, psíquico e social se constrói a partir do que herdamos dessas gerações anteriores.
A psicóloga francesa Anne Ancelin Schützenberger, que estudou a transmissão psíquica entre gerações, descreveu essa ligação familiar em uma reflexão conhecida de que somos “o elo de uma corrente” ou “uma folha de uma árvore genealógica”.
Essa imagem ajuda a pensar o quanto as histórias familiares podem permanecer presentes ao longo do tempo. A partir dela surgem perguntas importantes. Até que ponto conseguimos escapar dessas repetições familiares? Somos realmente livres para viver nossa própria vida ou acabamos, muitas vezes, retomando caminhos já percorridos por pais e avós?
Diversas linhas da psicologia procuram compreender essa transmissão entre gerações. Carl Gustav Jung, por exemplo, observou que a vida psíquica também é influenciada por complexos familiares e por elementos que fazem parte de uma experiência humana compartilhada.
Pesquisas mais recentes em epigenética ampliaram essa discussão ao investigar como fatores ambientais, emocionais e sociais podem influenciar a expressão dos genes e deixar marcas que chegam às gerações seguintes.
Quando traumas familiares reaparecem
A clínica psicológica frequentemente mostra que sintomas e angústias nem sempre se explicam apenas pela história individual. Em muitos casos, eles também estão ligados a acontecimentos vividos por gerações anteriores.
Situações como guerras, perdas violentas, deslocamentos forçados ou mudanças bruscas de vida costumam produzir marcas intensas nas famílias. Nem sempre essas experiências encontram espaço para serem narradas. Muitas vezes, o silêncio aparece como tentativa de proteger os filhos ou como forma de seguir adiante após acontecimentos difíceis.
Quando essas experiências não são elaboradas, podem continuar presentes na história familiar de maneiras indiretas. Lutos não expressos, segredos e acontecimentos traumáticos podem reaparecer em outras gerações na forma de sofrimento emocional ou mesmo de sintomas físicos.
Um exemplo frequentemente citado envolve famílias marcadas pela Segunda Guerra Mundial. Pessoas que passaram por campos de concentração ou viveram situações extremas muitas vezes guardaram essas memórias para si como forma de sobrevivência psíquica. Em alguns casos, filhos e netos passam a apresentar manifestações que parecem ligadas a essas experiências que nunca foram plenamente narradas.
Pesadelos recorrentes, angústias persistentes ou adoecimentos físicos podem surgir, assim como expressões de acontecimentos que permaneceram sem elaboração dentro da história familiar.
Compreender a herança para seguir adiante
Ao longo da vida, todos herdamos de nossos antepassados uma língua, uma cultura e um conjunto de experiências que participam da formação da identidade. Essa herança ajuda a explicar quem somos e de onde viemos.
O escritor Hermann Hesse refletiu sobre essa condição humana em uma passagem conhecida de sua “Carta para um jovem artista”.
“A coisa que mais conta é o fato de que cada um de nós é o depositário de uma herança e é o portador de uma missão.”
Reconhecer essa herança não significa permanecer preso a ela. O trabalho psicoterapêutico pode ajudar a trazer à tona histórias familiares que ficaram guardadas por muito tempo e permitir que elas sejam compreendidas sob outra perspectiva.
Ao entrar em contato com essas experiências, muitas pessoas conseguem elaborar conflitos antigos, reduzir o peso de certas repetições e abrir espaço para escolhas mais conscientes. Conhecer a própria história familiar pode, portanto, ser um passo importante para compreender o presente e construir novos caminhos.
Fonte: com informações de Dorli Kamkhagi para a Brazil Health.
Dorli Kamkhagi, CRP 15511: Graduada em Psicologia, com Mestrado em Gerontologia e Doutorado pela PUC-SP; Head Nacional Brazil Health.





