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Opostos podem se atrair, mas a semelhança traz estabilidade

Narrativas midiáticas, músicas pop e crenças culturais predominantes sugerem a noção de que “os opostos se atraem” em relacionamentos românticos. Mas será que existe alguma evidência que comprove isso? Um estudo demonstrou o contrário: na maioria dos casos, os parceiros tendem a compartilhar suas características e valores fundamentais.

Essa ampla revisão sistemática foi liderada por Tanya Horwitz — cientista quantitativa com doutorado em Psicologia e em Genética Comportamental, Psiquiátrica e Estatística —, juntamente com seus colegas de pesquisa.

O grupo analisou 199 estudos revisados por pares (abrangendo milhões de casais) e dados de mais de 79 mil casais do Reino Unido para investigar a similaridade entre parceiros românticos, comprovando que o acasalamento seletivo é, na verdade, a regra no comportamento humano.

Conforme a análise, os parceiros em relacionamentos amorosos compartilham até 89% de suas principais características e valores. As características mais significativas em comum incluíam nível de escolaridade e uso de substâncias.

Acostumado a lidar com casais, o terapeuta Kyle Killian diz que, embora faíscas passageiras ou uma certa fascinação possam surgir entre pessoas muito diferentes uma da outra, a estabilidade romântica a longo prazo deriva principalmente de afinidades entre os parceiros.

“Durante um encontro rápido, observar as diferenças e semelhanças em termos de personalidade, objetivos e valores pode fornecer dados valiosos para decidir se este é um relacionamento que resistirá ao teste do tempo”, afirma o terapeuta.

Valores

A pesquisas com milhões de casais mostraram que os parceiros compartilham muitas semelhanças em religião, política, hábitos e objetivos de vida. É fácil perceber, com a polarização hoje no Brasil, que pessoas com visões sociais e políticas tão opostas, provavelmente enfrentariam grandes dificuldades no relacionamento.

Talentos versus valores

Embora o ideal seja que os valores essenciais e os hábitos de vida sejam compatíveis, as diferenças funcionam melhor em termos de talentos ou habilidades práticas. Por exemplo, um parceiro constrói coisas enquanto o outro cuida da logística. Ou seria também o caso de um sugerir o destino para uma viagem, e o outro planejar com antecedência todos os detalhes para a viagem transcorrer sem problemas.

Homofilia

A homofilia é a tendência natural dos seres humanos de se associarem, criarem laços de amizade ou formarem redes de relacionamento com pessoas semelhantes a si mesmas. As pessoas naturalmente gravitam em direção a “almas gêmeas” que refletem suas próprias personalidades, em vez de personalidades opostas.

Sim, alguém ser divertido, despreocupado e disposto a tudo pode ser atraente no primeiro encontro, mas depois daquela empolgação inicial, o que resta para os dois em termos de características essenciais de personalidade?

Complementaridade em casais

A discussão sobre talentos versus valores e homofilia acima aponta para a exceção à regra: um fator importante nos relacionamentos de casal é quando os parceiros conseguem se equilibrar em termos de personalidade e habilidades.

Por exemplo, um parceiro pode ser bastante sociável, gregário — uma pessoa extrovertida —, enquanto o outro pode ser mais tímido, quieto e reservado, deixando a agenda social para o parceiro extrovertido. O parceiro mais extrovertido pode “compensar” ou contrabalançar a menor inclinação do outro para a socialização, desde que as diferenças de extroversão não os irritem.

De acordo com Killian, os parceiros podem evoluir e, de fato, evoluem ao longo do tempo, influenciando-se mutuamente ao longo de décadas. Deste modo, ambos podem mudar e se aproximar de um ponto intermediário em suas dimensões de personalidade.

Assim, o parceiro mais extrovertido pode se aproximar do ponto médio do espectro extroversão-introversão e começar a valorizar momentos de solitude para ler, escrever e recarregar as energias.

“Enquanto o outro, antes tímido e reservado, pode se tornar mais comunicativo e confortável em sair e passar tempo com outras pessoas, a ponto de começar a tomar a iniciativa nesse sentido, inclusive organizando eventos sociais, algo que antes jamais aconteceria”, diz Killian.

Em outras palavras, as diferenças entre os parceiros não apenas podem se complementar, mas também impulsionar mudanças ao longo do tempo, levando cada um a se tornar mais equilibrado consigo mesmo.

Fonte: com informações de Kyle Killian para o Psychology Today.

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