O que acontece com o coração ao dormir menos de seis horas por noite
A humanidade vive uma rotina que valoriza a produtividade, as jornadas prolongadas e a ideia de que dormir pouco é sinônimo de dedicação. Muitas pessoas se orgulham de funcionar com apenas cinco ou seis horas de sono por noite. O problema é que o coração não compartilha dessa visão.
Conforme explica a cardiologista Ana Paula Garcia, dormir bem não é luxo nem perda de tempo. O sono é um dos pilares da saúde cardiovascular e sua privação pode desencadear uma série de alterações que aumentam o risco de infarto, AVC e outras doenças do coração.
A médica ressalta que a ciência vem mostrando de forma cada vez mais clara que dormir menos de seis horas de maneira habitual está associado a um maior risco de doenças cardiovasculares. O sono é um período de recuperação fundamental para o organismo.
“É durante esse momento que o corpo reduz seu estado de alerta, regula hormônios, reorganiza processos metabólicos e permite que o sistema cardiovascular se recupere do estresse do dia. Quando esse período de descanso é encurtado, uma série de mecanismos prejudiciais entra em ação”, explica.
Estado de alerta
Uma noite mal dormida não provoca apenas cansaço e dificuldade de concentração no dia seguinte. A privação de sono aumenta a produção de cortisol, conhecido como o hormônio do estresse, e estimula excessivamente o sistema nervoso simpático, responsável pelas respostas de alerta do organismo.
Na prática, segundo Ana Paula, isso significa que o corpo permanece em um estado de ativação contínua. A frequência cardíaca tende a aumentar, a pressão arterial pode se elevar e os vasos sanguíneos ficam mais sujeitos ao desgaste.
“Com o passar do tempo, esse estímulo constante cria um ambiente desfavorável para a saúde cardiovascular e contribui para o desenvolvimento de doenças crônicas.”
Metabolismo
As consequências do sono insuficiente vão muito além do sistema nervoso. Dormir pouco altera o funcionamento de diversos hormônios relacionados ao apetite, ao metabolismo e ao controle da glicose.
Estudos mostram que a privação crônica de sono está associada à menor sensibilidade à insulina, favorecendo o desenvolvimento de resistência insulínica e diabetes tipo 2.
Além disso, aumenta a produção de substâncias inflamatórias, criando um estado de inflamação de baixo grau que contribui para o envelhecimento precoce do sistema cardiovascular.
Outro efeito bastante conhecido é a maior tendência ao ganho de peso. “Pessoas que dormem pouco costumam apresentar mais fome, maior desejo por alimentos calóricos e maior dificuldade para controlar o peso corporal, um fator que também aumenta o risco cardiovascular”, lembra a médica.
Hábito de privação
Dormir mal de forma ocasional faz parte da vida. O problema surge quando a restrição de sono se torna um padrão. Há evidências, inclusive, de que a privação de sono esteja associada ao aumento da mortalidade cardiovascular.
Diversos estudos populacionais mostram que pessoas que dormem menos de seis horas por noite de maneira habitual apresentam maior risco de hipertensão arterial, doença coronariana, arritmias, insuficiência cardíaca, infarto e acidente vascular cerebral.
É importante lembrar que a qualidade do sono também faz diferença. Algumas pessoas permanecem muitas horas na cama, mas têm um sono fragmentado ou sofrem de distúrbios como a apneia obstrutiva do sono — uma condição que aumenta significativamente o risco de hipertensão, fibrilação atrial e outras doenças cardíacas.
Por isso, a prevenção cardiovascular deve ir muito além do colesterol, pressão arterial, alimentação e atividade física. O sono precisa ser reconhecido como um dos pilares da saúde do coração.
Em muitos casos, a prevenção começa com uma medida simples, mas frequentemente negligenciada: respeitar a necessidade de descanso do próprio organismo. “Apagar a luz um pouco mais cedo pode parecer um gesto pequeno, mas para o coração pode representar um investimento valioso em saúde e longevidade”, conclui a cardiologista.
Fonte: com informações de Ana Paula Garcia para a Brazil Health.
Ana Paula Andrade Garcia (CRM-SP 151.840): médica pós-graduada em Cardiologia pelo Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo; membro da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo.






