Entre o flerte de amizade e os vínculos da vida
Hoje, 30 de julho, celebramos o Dia Internacional da Amizade. Ao mesmo tempo em que celebramos esta data tão especial, vivemos em uma época em que até os relacionamentos parecem seguir a lógica do consumo: aproximam-se enquanto oferecem prazer e são descartados diante da primeira frustração. A superficialidade, o cancelamento e a pressa também alcançaram as amizades.
Nesse cenário, ocorre um fenômeno que podemos chamar de “flerte de amizade”.
São aquelas relações agradáveis que surgem em ambientes como salões de beleza, academias ou cafeterias. Não exigem continuidade nem compromisso. Alimentam-se apenas do prazer de compartilhar um momento. E isso não é pouco. Estudos em neurociência mostram que encontros sociais acolhedores favorecem a liberação de ocitocina, substância associada à confiança e ao fortalecimento dos vínculos, além de reduzirem a resposta do organismo ao estresse e ampliarem o sentimento de pertencimento.
Mas existe uma diferença entre encontros e vínculos.
As amizades profundas são construídas com tempo, presença e partilha da vida. São elas que conhecem nossa história, testemunham nossas transformações e permanecem quando a juventude já ficou para trás. A própria neurociência demonstra que vínculos de confiança modulam a resposta ao estresse, fortalecem a resiliência e estão associados à preservação da saúde mental, ao envelhecimento saudável e até à maior longevidade. Não é por acaso que amigos antigos costumam representar um porto seguro: eles compartilham não apenas nossas alegrias e dores, mas também a memória da nossa própria história.
Paradoxalmente, as redes sociais aproximam quem está longe e, muitas vezes, afastam quem está perto. Temos centenas de contatos, mas cada vez menos encontros reais. Pesquisas em neurociência indicam que o cérebro responde de forma mais intensa aos encontros presenciais do que às interações virtuais, pois a convivência ativa simultaneamente o contato visual, as expressões faciais, o tom de voz, a linguagem corporal e outras formas de comunicação que fortalecem os vínculos humanos.
Cuidar das amizades presenciais tornou-se um luxo que poucos se permitem. Estamos investindo mais no ter — seguidores, curtidas e conexões — do que no ser: presença, companhia e memórias construídas ao lado de quem caminha conosco.
Portanto, neste Dia Internacional da Amizade, convidamos você a refletir: como tem cultivado suas amizades? Elas lhe oferecem apenas boa companhia ou também fortalecem aquele sentimento de pertencimento que protege a mente, o cérebro e a própria vida?
Afinal, amizades também precisam ser cultivadas para florescer e permanecer.
Num mundo de relações líquidas, vale a pena recordar que amizades verdadeiras não acontecem por acaso: elas são construídas. Não sobrevivem de notificações, mas de tempo, presença e afeto. É nesses encontros que a vida deixa de ser apenas compartilhada para ser verdadeiramente vivida.
Fonte: Bernadete Freire Campos, escritora e palestrante em Neurociência, Filosofia, PNL e Linguagem.






