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Inflamação crônica: riscos de um organismo em alerta permanente

Ao ouvir a palavra “inflamação”, é comum pensar em algo visível e passageiro, como uma garganta inflamada, uma infecção ou um machucado que dói e fica vermelho. Existe, porém, um tipo de inflamação muito mais silencioso e perigoso: a inflamação crônica de baixo grau.

Ela pode permanecer ativa por anos sem dar sinais evidentes e está associada a várias doenças que atualmente mais afetam a população, como obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão, infarto, AVC, gordura no fígado, alguns tipos de câncer e até doenças neurodegenerativas.

Conforme a nutróloga Júlia Soffner, o que faz essa inflamação surgir está, em boa parte, no estilo de vida moderno. O consumo frequente de ultraprocessados, excesso de açúcar, sedentarismo, noites mal dormidas, estresse constante, tabagismo e álcool em excesso criam um ambiente que mantém o organismo em estado de alerta permanente.

“Como consequência, o corpo passa a produzir substâncias inflamatórias de forma contínua, afetando diferentes órgãos e sistemas”, explica a nutróloga, lembrando que uma das grandes protagonistas desse processo é a gordura visceral.

Essa gordura é aquela que se acumula dentro do abdômen, ao redor dos órgãos, e que está diretamente ligada aos hábitos citados acima. Diferentemente da gordura localizada logo abaixo da pele, a gordura visceral é metabolicamente ativa.

“Ela libera substâncias inflamatórias que aumentam o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas. Pessoas com peso aparentemente normal também podem ter excesso de gordura visceral e estar sob maior risco. Por isso, o número da balança nem sempre conta toda a história”, ressalta Júlia.

Como identificar e reduzir a inflamação no dia a dia

Embora silenciosa, a inflamação crônica pode ser identificada. Alguns exames laboratoriais ajudam a detectá-la antes mesmo do surgimento de doenças. Um dos mais utilizados é a proteína C-reativa ultrassensível (PCR-us), capaz de revelar níveis discretos de inflamação no organismo.

Sinais como o aumento da circunferência abdominal, alterações da glicose e resistência à insulina também podem indicar que o corpo já vem sofrendo os efeitos desse processo.

A boa notícia, segundo Júlia, é que dá para combater a inflamação crônica, com estratégias específicas e acompanhamento profissional. Pequenas mudanças, feitas de forma consistente, costumam trazer grandes resultados:

  • Priorizar alimentos naturais, azeite de oliva, peixes e castanhas.
  • Aumentar o consumo de frutas, verduras e legumes.
  • Praticar atividade física com regularidade.
  • Dormir bem e controlar o estresse.

O que a ciência já sabe sobre esse processo

Nos últimos anos, a ciência tem demonstrado que essa inflamação pode ser um dos principais fatores por trás do envelhecimento precoce e da perda de saúde ao longo da vida.

Um estudo publicado em 2025 na revista Nature Medicine acompanhou mais de 100 mil pessoas por 30 anos e observou que aquelas com uma alimentação rica em vegetais, frutas, oleaginosas, peixes e grãos integrais tinham mais que o dobro de chances de chegar aos 75 anos com boa saúde física e mental.

Outro estudo, publicado no The Journal of the American Medical Association, mostrou que quem segue mais de perto a dieta mediterrânea — baseada em alimentos in natura, ricos em antioxidantes e gorduras boas — apresentou uma redução de 23% no risco de morte por todas as causas.

Respeitando os ritmos do organismo

A ciência também mostra que não importa apenas o que comemos, mas também quando comemos. Respeitar os ritmos naturais do organismo pode ajudar no controle da inflamação, como evitar carboidratos de má qualidade no fim do dia.

Talvez o maior desafio da medicina atual não seja apenas tratar doenças, mas impedir que elas apareçam. Por isso, entender e controlar a inflamação crônica é tão importante para promover saúde, prevenir doenças e envelhecer com mais qualidade de vida.

“Esse inimigo invisível pode agir silenciosamente por muitos anos, mas, felizmente, há muito que podemos fazer para mantê-lo sob controle”, conclui a nutróloga.

Fonte: com informações de Júlia Soffner para a Brazil Health.

Júlia Soffner (CRM-SP 189190): nutróloga na Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo.

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