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Desorganização financeira sustenta ciclo de ansiedade entre brasileiros

A relação dos brasileiros com o dinheiro está longe de ser apenas matemática. Ela é emocional, comportamental e, muitas vezes, silenciosa. Não por acaso, a desorganização da vida financeira tem se consolidado como uma das principais fontes de ansiedade — um problema que começa nas planilhas, mas rapidamente atravessa a saúde mental.

Quando a falta de controle vira ansiedade

Dados recentes levantados pelo Velotax — plataforma brasileira de crédito digital — mostram que o medo mais recorrente quando o assunto é dinheiro não está necessariamente ligado ao quanto se ganha, mas à sensação de falta de controle: não ter ou não saber administrar. Isso ajuda a explicar por que tantos brasileiros convivem com dívidas que são “empurradas com a barriga” — sejam contas básicas, aluguel, parcelas de cartão ou financiamentos.

O retrato é ainda mais delicado quando olhamos para o tempo de sustentação desse cenário: enquanto 35,8% das pessoas conseguem permanecer nessa situação por mais de três meses, 35,6% não conseguem passar sequer um mês.

O fato é que os números mostram uma tensão constante, que oscila entre o limite e o colapso. Essa pressão contínua não é neutra. Pelo contrário, ela se acumula e se transforma.

O ciclo emocional por trás das dívidas

Do ponto de vista da psicologia, um dos mecanismos que mantém as pessoas presas nesse ciclo de ansiedade financeira é a construção de uma narrativa interna de incapacidade. Quando alguém passa a acreditar que “não sabe lidar com dinheiro”, que “sempre erra” ou que “não tem saída”, cria-se um terreno fértil para a paralisia. A preocupação deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.

E há um ponto de virada importante: quando essa preocupação começa a gerar prejuízos reais na vida da pessoa. Isso pode aparecer no afastamento de amigos e da família, na perda de interesse em resolver o problema, na sensação de que não há solução possível. Nesse estágio, não estamos mais falando apenas de finanças, mas também de saúde mental.

Os dados reforçam essa dimensão emocional. Na pesquisa do Velotax, entre os mais de 3.000 entrevistados, 32,2% apontam que o maior peso da situação financeira vem de decisões erradas no passado. Mas, independente disso ou de qual for o motivo que ocasionou a dívida, o impacto é profundo: 97,6% afirmam que só se sentirão aliviados quando quitarem suas contas.

O pensamento de que “só vou ficar bem quando tudo estiver resolvido” pode ser perigoso. Ele desloca o bem-estar para um futuro incerto e, ao mesmo tempo, intensifica a sensação de aprisionamento no presente.

Outro dado que chama atenção é o fato de que 56,9% das pessoas lidam com seus problemas financeiros de forma velada. Ou seja, não compartilham, não pedem ajuda, não dividem a carga. O silêncio, nesse contexto, não protege — ele isola.

Como recomeçar sem transformar a fase difícil em sentença

Organizar a vida financeira não é apenas uma questão de disciplina ou informação. É também sobre lidar com emoções como culpa, vergonha e medo. É sobre reconhecer que o dinheiro ocupa um papel importante na nossa sensação de segurança, mas não pode ser o único pilar que sustenta o bem-estar.

Na prática, isso passa também por criar caminhos possíveis de recomeço. Mais do que resolver tudo de uma vez, é fundamental começar de algum lugar. Pequenos avanços já são capazes de reduzir a sensação de descontrole e devolver ao indivíduo uma percepção de autonomia sobre a própria vida financeira.

Em momentos de instabilidade financeira, fortalecer outros aspectos da vida é essencial. Manter vínculos sociais, cultivar uma rede de apoio e encontrar formas acessíveis de lazer ajudam a evitar que o problema financeiro se torne o centro absoluto da existência. Afinal, ele é um problema, não a definição de uma vida.

Isso não significa ignorar a realidade. Pelo contrário: enfrentar a situação financeira é necessário e, muitas vezes, desconfortável. Mas esse enfrentamento precisa vir acompanhado de estratégia e, sobretudo, de humanidade. A vida financeira, assim como a própria vida, é cíclica. Haverá momentos de aperto e de alívio. O que não pode acontecer é transformar uma fase difícil em uma sentença permanente.

No fim das contas, organizar o dinheiro é também reorganizar a forma como nos relacionamos com ele — e com nós mesmos. Porque, quando a conta não fecha, não é só o saldo que fica negativo. A saúde mental também entra no vermelho.

Fonte: com informações de Carol Melhem e Victor Savioli para a Brazil Health.

Carol Melhem: psicóloga clínica pós-graduada em Terapia Cognitiva Comportamental; especialista em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) pelo Hospital das Clínicas.

Victor Savioli: cofundador da plataforma brasileira de crédito digital Velotax.

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