Oração Dia das Mães: O Desespero da Piedade
Por Bernadete Freire Campos
Parafraseando Vinicius de Moraes, venho pedir em oração, neste Dia das Mães, começando por elas: as mulheres, que outrora lutavam por todas, mas que hoje, tantas vezes, já não reconhecem a dor umas das outras.
Senhor, tende piedade das mulheres que ainda sofrem as injustiças básicas de sempre, já tão conhecidas e tão cantadas.
Mas tende piedade sobretudo das mulheres do nosso tempo: as que não lutam apenas pelo pão, mas pelo futuro dos filhos.
Das que desejam deixar, além da sobrevivência, um legado de sabedoria, consciência e verdadeira justiça.
Porque não querem legar apenas a lógica da luta, mas a coragem moral de permanecer humanas em tempos de brutalidade.
Tende piedade também das mulheres endurecidas pelo poder, das que perderam a capacidade de reconhecer a dor de outras mulheres, e que defendem a justiça somente quando ela serve às próprias convicções.
Mas tende piedade também dos que assistem calados, dos que se acostumaram ao absurdo, dos que já não estremecem diante da injustiça.
Porque o mundo enlouqueceu das palavras, e já não se sabe quem acusa, quem mente, quem vende, quem trai.
Tende piedade do povo, Senhor, que é povo e não sabe que é povo; que sofre, mas aprende a admirar seus algozes; que entrega sua voz aos tiranos e chama vingança de justiça.
E neste Dia das Mães, Senhor, tende piedade de todas elas.
Das mulheres comuns, para que não desistam da liberdade simples de viver em paz, de criar os filhos sem medo, de dormir sem desespero, e de continuar esperando pelo melhor.
Das mulheres que ocupam o poder, para que usem sua influência não para dividir, mas para fazer justiça.
Justiça verdadeira, que reconhece a dor humana antes das ideologias, e que jamais esquece que toda mãe é, antes de tudo, um coração em vigília.
Porque desesperar, Senhor, é deixar de esperar.
E enquanto houver mães capazes de ensinar ternura, coragem e consciência, haverá esperança de que o mundo reaprenda a ser humano.
Por último, Senhor, tende rigor com aqueles que usam Vosso Santo Nome para justificar crueldades humanas.
Porque nenhum poder permanece legítimo quando escolhe quem merece compaixão e quem deve servir de exemplo.
E nenhuma justiça é justa quando se usa o pêndulo ideológico para medir a dor humana.
Fonte: Bernadete Freire Campos, escritora e palestrante em Neurociência, Filosofia, PNL e Linguagem.






