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Violência a animais choca, mas pouco muda

O caso do cão comunitário Orelha tem provocado grande indignação em diversas camadas da sociedade e ganhou cobertura internacional. De acordo com denúncias, quatro adolescentes estariam envolvidos no episódio que resultou em sua morte.

Sem entrar em detalhes sobre esse ato cruel, alguns podem se perguntar: afinal, por que ficamos tão impressionados e indignados com este e outros casos semelhantes?

Ao mesmo tempo, é inevitável questionar por que, mesmo diante de tamanha indignação, ainda estamos tão distantes de uma realidade em que existam mecanismos mais claros não apenas de punição, mas, sobretudo, de proteção aos animais.

Por que ficamos indignados?

Nas últimas décadas, vários pesquisadores têm feito a mesma pergunta, e alguns fatores parecem ter impacto importante na forma como reagimos a tais atos de violência.

Empatia por seres vulneráveis ativa reações emocionais fortes: os animais — principalmente os domésticos —, segundo pesquisa publicada em 2023 na Frontiers in Psychology, tendem a despertar reações empáticas intensas.

Isso se deve, em parte, à percepção de que são seres vulneráveis com os quais compartilhamos várias características. Muitas pessoas reconhecem a capacidade de sentir e pensar dos animais, o que aumenta a sensação de conexão emocional e empatia. Esse reconhecimento intensifica as reações empáticas e o desejo de protegê-los.

Crueldade contra animais tem sido associada a outras formas de violência: outro fator pode estar ligado ao crescente número de pesquisas que apontam forte relação entre violência contra animais e violência interpessoal e doméstica.

Um artigo publicado em 2020 no International Journal of Environmental Research and Public Health, por exemplo, destaca a coocorrência de abuso contra animais e violência doméstica. O reconhecimento desse vínculo pode impactar nossas reações emocionais, já que tais eventos podem ser percebidos como uma ameaça mais ampla.

Animais são família: para um número crescente de pessoas, longe de serem apenas animais, eles são membros da família. Um levantamento recente com tutores nos Estados Unidos revelou que, para 97% deles, os pets são membros da família — números semelhantes aos observados em outras partes do mundo.

Nesse cenário, atos de crueldade contra um animal doméstico podem ativar a percepção de que algo precioso e familiar foi brutalmente ferido ou destruído.

Por que então nossa indignação muitas vezes não vira ação?

Vivemos em uma sociedade onde as relações entre humanos ainda são privilegiadas e, em muitos lugares, os animais domésticos continuam sendo vistos como propriedade. Soma-se a isso a distância entre a indignação e ações coletivas organizadas, capazes de promover mudanças estruturais.

Além disso, para algumas pessoas, esses casos são tão chocantes que ler sobre o assunto se torna um gatilho emocional muito forte. Não por frieza, mas pela dificuldade de lidar com a dor que esse tipo de violência expõe. Com isso, a comoção tende a ser intensa, porém passageira.

Mesmo quando há pressão social, mudanças estruturais levam tempo e esbarram em obstáculos práticos, como a falta de perícia veterinária acessível e padronizada e a ausência de atuação coordenada entre a saúde humana, a saúde animal e o sistema jurídico. O resultado é que, na maioria das vezes, a indignação não se converte em proteção efetiva.

As pesquisas mostram uma ligação consistente entre abuso animal e outras formas de violência, o que, por si só, já justificaria uma resposta institucional mais robusta. Ainda assim, há um ponto fundamental que não pode ser ignorado: os animais merecem proteção por si mesmos, independentemente de qualquer impacto indireto sobre os humanos.

Que a morte brutal de Orelha seja mais do que uma indignação momentânea e se transforme em um alerta capaz de impulsionar mudanças concretas na legislação de proteção aos animais, na atuação integrada de profissionais da saúde humana e animal e na forma como os animais são percebidos em nossa sociedade.

Fonte: com informações de Renata Roma para a Brazil Health.

Renata Roma é psicoterapeuta e pesquisadora na University of Saskatchewan no Canadá. Ela é especialista na relação entre saúde emocional, infância e vínculos com animais.

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