Saúde mental nas empresas vira tema de debate nacional
Durante muito tempo, a saúde mental foi tratada nas empresas como um tabu e um tema periférico, associado a ações pontuais de bem-estar ou campanhas de conscientização restritas a datas específicas do calendário.
Esse cenário mudou de forma definitiva. A campanha que ocorreu no Janeiro Branco foi muito importante para jogar luz sobre o tema, mas o cuidado com a saúde mental não pode se limitar a um único mês.
Hoje, falar sobre isso no trabalho é falar de produtividade, retenção de talentos, gestão de riscos e, de maneira cada vez mais clara, de impacto financeiro nos negócios.
Afastamentos
Os números ajudam a dimensionar essa transformação. No Brasil, os afastamentos por transtornos mentais vêm batendo recordes ano após ano.
Dados da Previdência Social mostram que afastamentos por ansiedade e depressão mais do que dobraram de 2022 para 2024, pressionando tanto o sistema previdenciário quanto as estruturas internas das empresas.
Ao mesmo tempo, chamam atenção os dados levantados em uma pesquisa conduzida pela empresa de soluções de gestão integrada Caju, em parceria com a empresa de consultoria de negócios Consumoteca.
Na amostra, 70% da Geração Z acreditam que todos deveriam fazer terapia, e 32% já receberam diagnóstico de ansiedade ou depressão. Isso indica uma mudança profunda nas expectativas das novas gerações em relação ao papel das organizações no cuidado com a saúde emocional.
Esse debate ganhou novos contornos com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a reconhecer formalmente os riscos psicológicos no ambiente de trabalho a partir deste ano, reforçando a responsabilidade das empresas pelo tema.
O preço da negligência
Mas há um aspecto que ainda costuma ser subestimado e que ultrapassa os limites de responsabilidade dos recursos humanos: o custo da negligência.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 12 bilhões de dias úteis sejam perdidos todos os anos no mundo em decorrência de depressão e ansiedade, representando um impacto econômico em torno de US$ 1 trilhão por ano (R$ 5,26 trilhões).
Esses números ajudam a explicar por que o bem-estar deixou de ser apenas uma pauta de cuidado humano e passou a ocupar espaço central nas estratégias de sustentabilidade e desempenho organizacional.
No cotidiano das empresas, esse impacto financeiro se manifesta de diferentes formas. O absenteísmo — falta do funcionário ou ausência em cumprir o dever — relacionado a transtornos mentais cresce de forma consistente.
Mas há também o efeito menos visível do presenteísmo, quando o funcionário está fisicamente presente, porém com desempenho comprometido.
Soma-se a isso o aumento do turnover emocional, caracterizado por desligamentos mentais dos funcionários motivados por estresse, burnout e insegurança psicológica, que elevam significativamente os custos de substituição, recrutamento e treinamento.
Norma Regulamentadora
A atualização da NR-1 reforça esse movimento ao estabelecer um novo patamar de responsabilidade para as organizações.
Mais do que atender a uma exigência regulatória, trata-se de uma oportunidade para estruturar políticas consistentes, capacitar lideranças e criar ambientes de trabalho mais seguros, saudáveis e produtivos.
Empresas que se antecipam a esse processo tendem a reduzir riscos legais, melhorar seus indicadores de clima e engajamento e, consequentemente, obter ganhos financeiros no médio e longo prazo.
Cuidar da saúde mental no trabalho não deve ser interpretado como uma concessão ou um custo inevitável. Trata-se de um investimento estratégico na longevidade dos negócios, na inovação e na capacidade das empresas de atrair e reter talentos em um mercado cada vez mais competitivo.
O impacto humano é inquestionável. O impacto financeiro, agora, também é impossível de ignorar.
Fonte: com informações de Lucas Fernandes para a Brazil Health.
Lucas Fernandes: Psicólogo com MBA em Gestão de Negócios e diretor de recursos humanos da Caju — empresa de tecnologia brasileira que oferece soluções integradas para gestão de benefícios, despesas e pessoas.






