Saudades de saborear as palavras
por Bernadete Freire Campos
Desde menina encontro nas palavras — e especialmente na poesia — uma forma de expressão e, muitas vezes, de cura.
Talvez as palavras sejam um dos maiores diferenciais do ser humano.
Na infância, são as palavras engraçadas, inventadas, tropeçadas.
Na juventude, chegam as apaixonadas. Urgentes, exageradas, cheias de promessas.
Na maturidade, procuramos as palavras sensatas. Algumas, quem sabe, até sábias.
Mas na velhice…
Ah, na velhice, as palavras ganham peso e beleza de eternidade.
Talvez porque comecem a saber que podem se transformar em legado.
Algumas atravessarão gerações e séculos.
O tempo leva a voz, mas a palavra fica — e é nela que nos tornamos eternos.
Por isso, quanto mais avançamos pela vida, maior deveria ser o cuidado com aquilo que falamos e escrevemos.
Mas há uma ironia.
É justamente nessa fase delicada da existência, quando as palavras carregam uma vida inteira dentro delas, que o ouvinte se torna escasso.
O mundo tem pressa.
As palavras, não.
Talvez por isso eu tenha tanta saudade das conversas sem pressa.
De falar sabendo que alguém está ali — inteiro — recebendo aquilo que digo.
Saborear palavras sozinha não tem o mesmo gosto.
Quando saboreadas a dois, as palavras aproximam, acolhem e, muitas vezes, curam.
Quando ignoradas, interrompidas ou engolidas às pressas, podem ficar dentro de nós.
E palavra que precisava ser dita, mas não encontrou quem a escutasse, às vezes vira silêncio.
E há silêncios que adoecem.
Hoje, na fase em que minhas palavras buscam virar legado, peço apenas um ouvinte atento.
Alguém para saboreá-las comigo.
Dando o tempo exato para que o silêncio fecundo ecoe e dê a elas o acabamento que merecem para durar.
Sinto falta de tudo o que as palavras já foram em mim.
Por isso, chamo de volta as engraçadas da infância, as apaixonadas da juventude e as sábias da maturidade.
Reúno todas, de mãos dadas, para que fiquem e inspirem os que virão depois.
E, neste mundo apressado que quase já não escuta…
Que bonito é saber que as minhas palavras ainda puderam encontrar abrigo em você.
Bernadete Freire Campos (CRP 14/00586-0): psicóloga; escritora e palestrante em Neurociência, Filosofia, PNL e Linguagem.







Parabéns pelo artigo fabuloso! Brilhante Dra Bernadete 🙌👏👏👏