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Amor ou idealização? O que sustenta uma relação além da paixão

“Eu sei que vou te amar por toda a minha vida.” Poucas frases traduzem tão bem o estado de apaixonamento. Quando duas pessoas se encontram, é comum surgir a sensação de que finalmente encontraram alguém capaz de preencher ausências, aliviar solidões e dar sentido à própria existência.

Nesse momento, o outro deixa de ser apenas uma pessoa e passa a ocupar um lugar muito maior: o de alguém que parece reunir todas as qualidades desejadas e todas as respostas para nossas necessidades emocionais.

Entretanto, a psicóloga Dorli Kamkhagi diz que é justamente aí que mora uma das principais armadilhas dos relacionamentos. Citando o psicanalista Jacques Lacan, ela explica que o apaixonamento envolve uma intensa idealização.

“Enxergamos o outro não exatamente como ele é, mas como gostaríamos que fosse. Projetamos desejos, expectativas e fantasias. Por isso, muitas vezes a paixão produz a sensação de completude, como se a felicidade dependesse exclusivamente daquela relação”, afirma Dorli.

Quando o amor se transforma em dependência

A busca por afeto, acolhimento e pertencimento faz parte da experiência humana. O problema surge quando a relação passa a exigir que o outro ocupe todos os espaços emocionais da nossa vida.

Nesses casos, conforme Dorli, aparecem comportamentos marcados por ciúme excessivo, controle, possessividade e medo constante de abandono. “Aos poucos, a relação deixa de ser um encontro entre duas pessoas e se transforma em uma tentativa permanente de garantir segurança emocional”, destaca a psicóloga.

Na prática clínica, é comum observar vínculos em que um dos parceiros passa a abrir mão dos próprios desejos, amizades e projetos para atender às expectativas do outro. “O resultado costuma ser sofrimento para ambos”, completa.

O amor não elimina a individualidade. Relações saudáveis exigem proximidade, mas também espaço para que cada pessoa preserve sua própria identidade.

Quando a realidade rompe a fantasia

De acordo com a psicóloga Dorli, são muitas as histórias de sofrimento amoroso que começam quando a realidade entra em conflito com a idealização.

Foi o caso de Rafael, executivo de 65 anos que procurou ajuda durante um quadro depressivo. Casado havia décadas, envolveu-se em uma nova relação que lhe devolveu sensações de entusiasmo e potência emocional.

Por algum tempo, acreditou ser possível manter todos os desejos simultaneamente: o casamento, a paixão e a admiração de ambas as mulheres. “Mas a fantasia não resistiu à realidade. A nova parceira desejava autonomia; ele desejava controle. Quando a relação terminou, veio o sofrimento”, comenta a psicóloga.

Embora dolorosos, rompimentos muitas vezes funcionam como convites para o autoconhecimento. Eles revelam expectativas, fragilidades e idealizações que permaneciam ocultas.

Existe um amor possível?

O psicanalista Donald Winnicott defendia que a capacidade humana de construir vínculos está relacionada às experiências afetivas vividas desde os primeiros anos de vida. Quando existe segurança emocional suficiente, torna-se mais fácil estabelecer relações menos dependentes e mais realistas.

“Isso não significa abrir mão da paixão. Significa compreender que ela é apenas uma etapa da relação”, explica Dorli, lembrando que o amor amadurece quando conseguimos enxergar o outro para além das idealizações. “Quando reconhecemos virtudes e limitações, acolhemos diferenças e entendemos que nenhuma pessoa será capaz de suprir todas as nossas necessidades emocionais”, diz.

Para ela, talvez o amor possível seja justamente aquele que sobrevive ao fim das fantasias. Um vínculo construído sobre diálogo, respeito, afeto e liberdade. Um encontro entre duas pessoas inteiras, e não entre duas metades em busca de completude.

“Como escreveu Vinicius de Moraes, talvez o amor não precise ser eterno. Mas pode ser profundamente verdadeiro enquanto existir”, conclui a psicóloga.

Fonte: com informações de Dorli Kamkhagi para a Brazil Health.

Dorli Kamkhagi (CRP 15.511): Psicóloga e Head nacional da Brazil Health.

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