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Quando a aparência vira obsessão: sinais do transtorno dismórfico corporal

Uma preocupação intensa e persistente com supostos defeitos na aparência, muitas vezes imperceptíveis para outras pessoas, pode ser sinal de transtorno dismórfico corporal (TDC), condição de saúde mental ainda confundida com vaidade ou insegurança. O problema importa porque pode comprometer a vida social, afetiva e profissional e se associar à ansiedade, depressão e, em alguns casos, ideação suicida.

Na prática, o TDC não se resume a não gostar de uma parte do corpo. A pessoa passa a organizar a rotina em torno da aparência, com sofrimento significativo e dificuldade de interromper pensamentos e comportamentos repetitivos ligados ao que acredita ser um “defeito”.

O transtorno pode levar a checagens compulsivas no espelho, isolamento e prejuízo no trabalho e nas relações. Especialistas alertam que não se trata de vaidade e pode haver risco de depressão e ideação suicida.

O que costuma aparecer no dia a dia

Entre os sinais mais citados estão checar o espelho com frequência, comparar-se com outras pessoas, pedir validação constante, evitar fotos e situações sociais e tentar esconder áreas do corpo com roupas, maquiagem ou ângulos específicos. Também pode haver procura recorrente por procedimentos estéticos, com alívio passageiro e retorno rápido da angústia, muitas vezes deslocada para outra parte do rosto ou do corpo.

Segundo a psicóloga Maria Klien, a experiência é marcada por medo e vigilância. “No transtorno dismórfico corporal, o espelho deixa de ser apenas uma superfície de reconhecimento e passa a funcionar como um campo de ameaça. A pessoa não se olha para se ver, mas para confirmar aquilo que teme encontrar”, afirma.

(foto: Lookstudio / Magnific)

Impacto na vida social e risco de subdiagnóstico

O transtorno pode levar a cancelamentos frequentes de compromissos, recusa de convites, faltas ao trabalho e restrição de circulação em espaços públicos por receio de ser observado. “Quando a imagem passa a comandar decisões, relações, horários, roupas, saídas e silêncios, já existe um pedido de cuidado”, diz Klien.

Estimativas reunidas pela International OCD Foundation apontam que o transtorno dismórfico corporal afeta de 1,7% a 2,9% da população geral, com chance de subdiagnóstico, já que muitas pessoas sentem vergonha de relatar os sintomas. A condição também aparece com maior frequência em serviços ligados à estética, como dermatologia, cirurgia plástica e odontologia estética.

Por que não é apenas questão de autoestima

Estudos científicos investigam diferenças no processamento visual em pessoas com TDC, incluindo maior foco em detalhes e alterações em padrões de atenção. Pesquisas lideradas por Jamie Feusner, professor de psiquiatria da Universidade de Toronto, exploram a relação entre percepção visual e funcionamento cerebral no transtorno.

Para Klien, esse tipo de evidência ajuda a tirar o tema do campo do julgamento moral. “Não se trata de alguém que quer chamar atenção. Há uma experiência interna de distorção, medo e vigilância. Quando a pessoa se fixa em um detalhe, ela pode perder a percepção do conjunto”, explica.

O diagnóstico considera, além da preocupação com a aparência, a presença de comportamentos repetitivos ou atos mentais ligados a essa preocupação e prejuízo relevante em áreas como estudo, trabalho e relações, conforme descrições clínicas usadas na psiquiatria. O acompanhamento psicológico e, quando indicado, a avaliação psiquiátrica podem ajudar a reduzir compulsões e reorganizar padrões de pensamento.

Em situações de ideação suicida, automutilação ou risco imediato, a orientação é buscar atendimento de urgência em serviços de saúde.

Fonte: com informações do Brazil Health.

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