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Poema para reflexão de um casal em terapia, por Bernadete Freire Campos

O escritor, filósofo e sociólogo Zygmunt Bauman desenvolveu o conceito de “amor líquido” para descrever a fragilidade e a instabilidade dos vínculos afetivos na sociedade contemporânea. O poema abaixo dialoga com essa reflexão, mas segue um caminho próprio ao propor uma pergunta essencial: o que acontece quando o amor se torna líquido?

A resposta poética sugerida é que ele pode evaporar, dissolvendo-se nas exigências do tempo, nas decepções e nos desencontros da vida. Mas também pode voltar a ser fonte — capaz de renovar o vínculo, restaurar a esperança e saciar não apenas a sede do corpo, mas também a do espírito.

O Amor que se Fez Líquido (poema para reflexão de um casal em terapia)

No início era promessa

de salvar um ao outro:

da solidão que esmaga,

da rejeição que fere,

da fome de pão e de afeto.

Amar um estranho?

Pois as únicas referências, até então,

eram amores conhecidos:

o dos pais e dos irmãos.

Mas o estranho se fez fecundo,

e da carne nasceram novos amores:

sangue dos dois em igual medida.

Nasce, então, uma nova família.

Mas o mundo consumista criou desejos concretos

e, de repente, consumiu as energias do casal.

Já não carecem mais da inocência,

nem do antigo amor romântico.

Aquele amor que era sólido

tornou-se líquido:

escorre, evapora,

abre espaço para a sede

e para a lenta desidratação da alma.

E, ainda assim, na aridez profunda,

esses corpos cansados e desiludidos

desejam outra vez o milagre:

recomeçar.

Com outro? Com outra?

Nova história em um corpo marcado

pelas cicatrizes do passado.

Mas, se já não são os mesmos,

como amarão de novo

sem carregar os fantasmas antigos

para dentro de uma nova casa?

Como apagar as experiências

escritas com sangue, suor e lágrimas?

E como colar um coração partido?

Pois ninguém atravessa intacto

as ruínas de um amor.

Talvez amadurecer seja isso:

descobrir que amar

não é apenas se abastecer do corpo um do outro,

mas aprender a voltar a ser fonte,

a água viva que mata a sede

não só do corpo, mas do espírito.

Líquido precioso capaz de saciar

a sede um do outro.

FonteBernadete Freire Campos, escritora e palestrante em Neurociência, Filosofia, PNL e Linguagem.

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