Arqueólogos e designers recriam roupas originais usadas na Núbia cristã medieval
Um trabalho que exemplifica a rara e profunda interseção entre design e arqueologia resultou na recriação de roupas suntuosas usadas pela realeza e pelo clero na Núbia cristã medieval. As peças foram recriadas com base em murais de 1.200 anos atrás, pintados em uma catedral, e descobertos por acaso há seis décadas.
As vestimentas foram confeccionadas com materiais naturais, tingidas à mão e utilizando apenas tecidos e corantes disponíveis na África medieval do nordeste; a Núbia estava localizada no que hoje são partes do Egito e do Sudão.
(foto: Paulina Matusiak / Eddy Wenting)

Os pesquisadores da Universidade de Varsóvia tomaram conhecimento dos murais núbios por um feliz acaso. Em 1960, quando a construção da Represa de Assuã teve início no Egito, a UNESCO lançou uma campanha internacional para encontrar e resgatar obras arqueológicas que em breve estariam submersas nas águas do novo lago artificial Nasser.
Durante essa campanha, arqueólogos poloneses foram a Faras, um sítio arqueológico que outrora foi capital do reino núbio do norte, Nobadia, esperando encontrar um templo.
Em vez disso, descobriram uma catedral cristã, em bom estado de conservação e decorada com mais de 150 pinturas murais, “que abrangem um período entre os séculos VIII e XIV”, explica Karel Innemée, arqueólogo da Universidade de Varsóvia e coautor de um estudo sobre as recriações dos trajes núbios.
No entanto, a confecção dos figurinos foi um desafio. Não estava claro quais tecidos haviam sido usados nas roupas originais. A equipe concordou em usar apenas os corantes utilizados em tecidos daquela época e região, que eram conhecidos por meio de textos e descobertas arqueológicas.
“Com esses corantes (à base de plantas), inúmeros experimentos foram realizados em diversos tecidos: algodão, linho, seda e lã”, diz Innemée. Eles também se dedicaram a decorações em estamparia em bloco, bordados e apliques.
(foto: Paulina Matusiak / Eddy Wenting)

O trabalho contou com uma renomada equipe de design da School of Form da Universidade SWPS em Varsóvia, liderada por Agnieszka Jacobson-Cielecka. Cada peça foi meticulosamente confeccionada com materiais naturais, tingida à mão e adornada com técnicas inspiradas no artesanato tradicional.
A figurinista profissional de cinema e teatro, Dorothée Roqueplo, trabalhou com os pesquisadores para escolher os tecidos mais adequados, examinando suas texturas e como eram drapeados nas pinturas.
Enquanto a professora do Instituto de Fibras Naturais e Plantas Medicinais da Polônia, Katarzyna Schmidt-Przewoźna, reconstruiu a paleta de cores das vestimentas núbias medievais.
A colaboração resultou na criação de cinco silhuetas reconstruídas: duas vestimentas reais, duas peças de roupa de mães reais e um hábito episcopal.
(foto: Paulina Matusiak / Eddy Wenting)

As peças reconstruídas foram exibidas ao público pela primeira vez durante desfile em 2024 no Louvre, em Paris, e posteriormente apresentadas em Berlim e Londres, em 2025.
(foto: Paulina Matusiak / Eddy Wenting)

Descoberta
A descoberta de uma catedral em Faras não foi totalmente inesperada. A Núbia se tornou cristã em meados do século VI.
Embora os detalhes dessa transição ainda sejam debatidos, parece que a corte imperial bizantina cristã fez uma aliança com os governantes núbios, que se converteram e assumiram papéis como líderes religiosos, “conquistando um poderoso aliado no norte”, escrevem os pesquisadores no estudo.
Os murais iconográficos da catedral provavelmente foram criados para consolidar a autoridade da Igreja e do Estado, que eram “considerados originários de Deus e que reis e bispos exerciam seus cargos em seu nome”, diz o arqueólogo Innemée.
Os murais do clero e da realeza mostravam sua proximidade com figuras religiosas. “Vários deles eram representados com Cristo e/ou a Virgem Maria atrás ou ao lado deles, com as mãos em seus ombros em um gesto de apresentação ou proteção”, acrescenta.
Fonte: com informações de Laura Geggel para a Live Science.






