O preço oculto da pressão nas empresas
Nos últimos anos, as empresas passaram a discutir saúde mental com mais seriedade nos programas de bem-estar, semanas de mindfulness e iniciativas de equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Porém, existe um paradoxo silencioso nas organizações: enquanto se fala sobre cuidar da saúde dos colaboradores, raramente se discute a saúde dos próprios líderes.
Para a especialista em liderança organizacional, Lara Bezerra, os números mostram haver motivo para preocupação. Pesquisas globais indicam que cerca de 40% dos executivos já consideraram deixar suas posições devido ao estresse, ao esgotamento e à pressão constante por resultados.
“A liderança moderna opera em um ambiente de decisões complexas, ciclos econômicos voláteis e expectativas crescentes de performance. Uma combinação que cria um nível de pressão muitas vezes invisível, mas biologicamente real”, explica a especialista.
Conforme Lara, alta performance sustentada tem um custo fisiológico quando não é acompanhada de equilíbrio. Níveis cronicamente elevados de cortisol, distúrbios do sono, ansiedade persistente e aumento do risco de doenças cardiovasculares são cada vez mais relatados entre executivos.
Quando o organismo permanece em estado constante de alerta, a capacidade cognitiva começa a ser afetada: a clareza mental diminui, o raciocínio estratégico se estreita e as decisões passam a ser tomadas sob a influência do estresse, exatamente o oposto do que se espera de uma liderança de alto nível.
Modelo insustentável
Esse cenário revela uma mudança importante sobre a liderança. Durante décadas, o modelo dominante foi o do executivo resiliente ao extremo, capaz de suportar jornadas intensas e pressão constante sem demonstrar fragilidade.
“Hoje, a ciência organizacional e a neurociência mostram que esse modelo não é apenas insustentável, mas também é ineficiente”, ressalta Lara.
Por isso, a coerência na liderança tem se tornado um fator cada vez mais determinante para a qualidade das decisões nas organizações — sso significa alinhamento entre propósito, valores, decisões e comportamento.
Segundo Lara, quando esse alinhamento existe, líderes conseguem sustentar clareza mental e discernimento, mesmo em ambientes de alta pressão. “Quando não existe, o desgaste emocional aumenta, as decisões se tornam mais reativas e a organização perde a capacidade de pensar estrategicamente”, destaca a especialista.
Na sua avaliação, partindo de uma abordagem mais profunda, talvez exista uma pergunta ainda mais importante. “Será que o problema está apenas nos indivíduos ou no próprio sistema organizacional que estamos criando?”
(foto: PCH Vector / Freepik)

Estresse crônico
Em muitas empresas, estruturas de incentivo, metas de curto prazo, culturas de urgência permanente e ambientes de baixa segurança psicológica acabam produzindo um estado coletivo de estresse crônico. Dessa forma, líderes e equipes passam a operar em modo de sobrevivência, e não em modo de criação.
Cada vez mais, pesquisas e práticas de governança apontam para a importância da inteligência emocional, da coerência entre propósito e decisão e da construção de ambientes psicologicamente seguros nas organizações.
“Esses elementos não são apenas conceitos de cultura corporativa; eles têm impacto direto na saúde do líder e na qualidade da gestão”, diz Lara, ressaltando que a transformação não pode depender apenas do esforço individual.
Neste contexto, empresas que desejam proteger a saúde de seus líderes e colaboradores precisam revisar alguns pilares de sua forma de operar:
- Equilibrar resultados de curto prazo com sustentabilidade de longo prazo.
- Promover culturas organizacionais com segurança psicológica.
- Desenvolver modelos de liderança baseados em propósito e coerência.
“Quando esses elementos estão presentes, o impacto vai além do indivíduo. Líderes emocionalmente equilibrados tendem a criar organizações mais saudáveis, onde a inovação, a colaboração e o pensamento crítico florescem”, ressalta.
“Estamos começando a perceber que a saúde da liderança não é apenas uma questão pessoal; ela é uma variável estratégica do próprio sistema organizacional. Porque, no final, empresas são sistemas humanos. E, quando o sistema está doente, não adianta exigir mais força das pessoas que o sustentam. É preciso transformar o próprio sistema”, Lara Bezerra.
Fonte: com informações de Lara Bezerra para a Brazil Heath.
Lara Bezerra, é administradora de empresas pela FGV, especialista em liderança organizacional pela London Business School, especialista em liderança coerente e fundadora da WorkCoherence.






