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Tragédia familiar expõe crise emocional e cultura da vingança

Por Bernadete Freire Campos

O caso de Itumbiara (GO), envolvendo o homem que matou os dois filhos e depois tirou a própria vida, supostamente por não suportar uma traição, transformou o país em um grande tribunal informal. Nas redes sociais, multiplicam-se julgamentos e sentenças morais, quase sempre baseadas em percepções pessoais.

Sob o aspecto psicológico, porém, o episódio é mais complexo. Crimes dessa natureza não nascem de um único fato. A traição pode ter funcionado como gatilho, mas não explica, por si só, a violência extrema. É preciso considerar a história de vida do agressor, sua estrutura psíquica, possíveis transtornos de personalidade, imaturidade emocional e a dinâmica relacional do casal.

Em situações assim, observam-se baixa tolerância à frustração, dependência afetiva intensa, dificuldade para lidar com rejeição e sentimento exacerbado de humilhação. Quando identidade e autoestima estão apoiadas na ideia de controle e exclusividade, a ruptura amorosa pode ser vivida como colapso pessoal.

Há também um componente cultural. Em contextos ainda marcados por traços de machismo, a traição feminina é interpretada como ferida à honra. Essa visão reforça a noção de posse sobre a mulher e, por extensão, sobre os filhos. Em estruturas emocionais fragilizadas, a violência surge como tentativa de restaurar poder ou punir o outro.

O caso também expõe um cenário mais amplo: há um comprometimento da saúde emocional coletiva. Vivemos sob pressão constante — desempenho, competição, polarização e exposição permanente. Soma-se a isso a cultura do julgamento rápido, em que apontar o erro do outro parece aliviar conflitos internos não resolvidos.

A frustração deixou de ser parte do amadurecimento para se tornar intolerável. A dor, que poderia gerar crescimento, converte-se em ressentimento. A vingança é romantizada. A responsabilidade pessoal é relativizada.

Precisamos reafirmar uma cultura da vida, sem jamais normalizar atrocidades. Isso implica fortalecer a educação emocional, rever modelos de masculinidade baseados em controle e ampliar o acesso à saúde mental.

No fundo, o problema é mais profundo: trata-se de uma incapacidade de amar. Confunde-se amor com posse. E posse não é amor — é distorção, é adoecimento.

Essa incapacidade começa no indivíduo, na dificuldade de lidar com limites e perdas, mas se amplia no coletivo, alimentada pela validação constante das redes sociais, que hoje funcionam como formadoras de opinião mais poderosas do que qualquer outro meio. Quando discursos de ódio recebem aplauso, o adoecimento deixa de ser apenas pessoal e passa a ser social.

Se não enfrentarmos essa raiz, continuaremos julgando tragédias depois que elas acontecem — em vez de preveni-las.

FonteBernadete Freire Campos, escritora e palestrante em Neurociência, Filosofia, PNL e Linguagem.

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