Síndrome do impostor é comum em perfeccionistas não narcisistas
Todos perceberam que você não chegou onde está por mérito ou competência, mas sim por pura sorte. Você não pertence a este lugar, não entre todas essas pessoas que realmente sabem o que estão fazendo. Acabou seu tempo, amigo.
Isso soou como um absurdo? Ou era algo que você esperava ouvir há anos? Se for a segunda opção, você não está sozinho: dependendo de onde e como é medido, entre 9% e 82% de nós experimentamos esse sentimento em algum momento.
É chamado de Fenômeno do Impostor, ou Síndrome do Impostor — e agora um novo estudo descobriu o tipo de personalidade mais propenso a desenvolvê-lo.
O que é a síndrome do impostor?
A síndrome do impostor é, de certa forma, o inverso do efeito Dunning-Kruger, que se refere ao fenômeno de ser tão ruim em uma tarefa que a pessoa não consegue enxergar suas próprias deficiências.
Já no caso do impostor, ocorre quando se é realmente muito bom em algo — pode até receber elogios, prêmios, reconhecimentos e assim por diante para comprovar isso — e, ainda assim, por algum motivo, simplesmente não consegue aceitar suas habilidades como legítimas.
“O fenômeno do impostor, muitas vezes chamado coloquialmente de síndrome do impostor, descreve os sentimentos de inadequação e falsidade intelectual”, diz Colin Xu, professor assistente da Universidade de Idaho e principal autor do recente estudo sobre o tema.
É algo “vivenciado por alguns indivíduos de alto desempenho”, disse Xu. E isso “compreende a sensação de ser uma fraude, o medo de ser descoberto e a dificuldade em internalizar o sucesso”.
Provavelmente, você já ouviu falar de pessoas que têm um nível específico de conhecimento ou que pesquisaram bastante sobre um assunto, mas se retraem em reuniões e nada contribuem.
“Durante essas reuniões, eles ficam pensando: ‘Como é que entrei nessa sala com pessoas que são claramente mais inteligentes do que eu?’”, diz Susan David, psicóloga, cofundadora e codiretora do Instituto de Coaching.
Pode ser um ciclo vicioso. Carregado pela crença de que não pertence ao lugar onde está, a pessoa se sobrecarrega de trabalho, buscando padrões cada vez mais elevados. Não surpreendentemente (pelo menos para quem vê de fora), isso lhe rende elogios e aplausos — o que só faz ela se sentir ainda mais como uma fraude.
“Quando ouvimos algo positivo, queremos descartá-lo, mostrar aos outros o nosso erro e que não nos saímos bem”, diz Lisa Orbé-Austin, psicóloga licenciada e coach executiva. “Esse tipo de pensamento nos prende no ciclo da síndrome do impostor”, completa.
(foto: Yanalya / Freepik)

Tipo de personalidade do impostor
Qualquer pessoa pode desenvolver a síndrome do impostor, mas ela definitivamente afeta algumas pessoas mais do que outras: as mulheres parecem vivenciá-la com mais frequência e intensidade do que os homens, por exemplo, e as minorias étnicas e raciais são afetadas de forma desproporcional.
Há também ligações com a saúde mental. A síndrome do impostor já foi associada a neuroticismo, depressão e ansiedade. Mas características mais sutis também podem influenciar a probabilidade da pessoa vivenciar esse fenômeno.
Ele tem sido fortemente associado ao perfeccionismo, um traço de personalidade que busca a perfeição e o estabelecimento de padrões excessivamente altos de desempenho.
Essas associações vêm acompanhadas por avaliações excessivamente críticas do próprio comportamento.
Mas, como aponta o novo estudo, nem todo perfeccionismo é igual — e descobriu-se que alguns perfeccionistas não se incomodam tanto com a síndrome do impostor, afinal.
“Pesquisas anteriores sobre os fatores multidimensionais do perfeccionismo descobriram que o perfeccionismo pode ser caracterizado por três dimensões globais: perfeccionismo rígido, perfeccionismo autocrítico e perfeccionismo narcisista”, explica o novo estudo.
Diferenças de perfeccionismo
O primeiro tipo de perfeccionismo “descreve uma instância rígida de que o próprio desempenho deve ser perfeito”, explicam os autores — é o tipo de personalidade que leva a pessoa a basear toda a sua autoestima em seu próprio padrão pessoal de perfeição.
O perfeccionismo autocrítico, o segundo tipo, é bastante autoexplicativo: ele captura as facetas desadaptativas da preocupação em cometer erros, dúvidas sobre a incerteza do próprio desempenho, autocrítica quando o desempenho não atinge a perfeição e a tendência de perceber os outros como exigentes em relação à perfeição.
Ambos os subtipos podem ser classificados como “perfeccionismo neurótico” — mas o último, o perfeccionismo narcisista, não. Este último tipo é mais voltado para o exterior: exige padrões perfeccionistas irreais para os outros, enquanto considera a própria perfeição ou singularidade como algo natural.
Evidentemente, um desses subtipos não é como os outros — mas se essa diferença se relaciona com a experiência da síndrome do impostor ainda não foi suficientemente explorado. Será que essa ligação se confirmaria sob uma análise mais aprofundada?
Resultados do estudo
Para desvendar as nuances da ligação entre o perfeccionismo e a síndrome do impostor, a equipe recrutou cerca de 300 participantes para o estudo e aplicou dois questionários psicológicos.
O primeiro, a Escala de Fenômeno do Impostor de Clance, mede três fatores específicos: o quanto você se sente uma fraude; o quanto você desvaloriza seu próprio sucesso; e o quanto você atribui seu próprio sucesso à sorte.
O segundo, a Escala dos Três Grandes Fatores de Perfeccionismo, mede o quanto você é perfeccionista e qual subtipo melhor o descreve.
Os resultados foram claros: o perfeccionismo narcisista não só não apresentou correlação alguma com a síndrome do impostor, como, em alguns aspectos, a correlação foi até negativa.
Enquanto isso, como esperado, a síndrome do impostor esteve intimamente ligada aos dois subtipos neuróticos de perfeccionismo.
“Descobrimos que a síndrome do impostor apresentou forte correlação positiva com os subtipos de perfeccionismo rígido e autocrítico, mas não apresentou correlação com o perfeccionismo narcisista”, diz Xu.
Assim, explica Xu, parece que a síndrome do impostor e o perfeccionismo são conceitos intimamente relacionados, mas existem distinções importantes entre os subtipos de cada um.
Limitações
É verdade que este estudo apresenta algumas limitações. Os participantes não eram representativos, tendo sido recrutados exclusivamente de cursos de graduação da Universidade da Pensilvânia; além disso, para não sermos muito sutis, alguns deles podem ter sido impostores.
“Não medimos a variação entre os participantes no desempenho objetivo”, admitem os autores. “Ou seja, embora os participantes tenham relatado seus sentimentos de impostor, não sabemos se os efeitos seriam ampliados ou reduzidos para um indivíduo que objetivamente apresenta desempenho superior ou inferior entre seus pares.”
E por mais forte que seja a correlação, os pesquisadores enfatizam que a causalidade não pode ser inferida apenas a partir deste estudo. “Não sabemos a direção” do efeito, escrevem eles: “se a síndrome do impostor leva ao perfeccionismo rígido e autocrítico, ou se o perfeccionismo leva à síndrome do impostor, ou se existe uma relação bidirecional.”
Ainda assim, essas são questões para pesquisas futuras. Até lá, este estudo é uma peça importante do quebra-cabeça para se entender a ligação entre a síndrome do impostor e o perfeccionismo — ou talvez dizer, alguns tipos de perfeccionismo. O narcisismo, ao que parece, é um verdadeiro impostor.
Fonte: com informações de Katie Spalding e Tom Leslie para o IFLScience.






