Elefantes selvagens usam plantas medicinais para tratamento quando ficam doentes
Estudo envolvendo moradores nativos na região do Monte Elgon, no Quênia, descobriu que elefantes africanos que vivem soltos na natureza recorrem a espécies vegetais específicas quando adoecem. Além da automedicação, as fêmeas adultas oferecem essas mesmas plantas aos filhotes doentes.
A pesquisa científica contou com a participação de oito moradores da comunidade Sabaot, um grupo indígena que vive no local. Esses experientes nativos convivem há décadas com os elefantes, observando seus deslocamentos, alimentação e comportamento.
Cada um dos participantes relatou com detalhes as ocasiões em que observaram elefantes doentes procurando plantas específicas. Então, os pesquisadores combinaram as informações dos moradores com pesquisas botânicas, etnomedicinais e científicas.
O cruzamento de relatos resultou em 39 recursos utilizados pelos elefantes, sendo 35 espécies vegetais distribuídas em 23 famílias botânicas, além de quatro tipos de solo consumidos pelos animais. A grande maioria dessas plantas já foi descrita como anti-inflamatória, antibacteriana ou antiparasitária em outras pesquisas.
No recente estudo, os autores descrevem que 34 plantas consumidas pelos elefantes também são utilizadas na medicina tradicional da região, e 25 espécies foram descritas literalmente como remédio para elefante.
Um grupo de oito espécies (como a Aloe arborescens, Bersama abyssinica e Ficus natalensis) atendeu aos critérios mais rígidos da biologia para diferenciar os casos de alimentação comum do uso terapêutico.
Essas espécies foram destacadas porque os elefantes chegam a percorrer até 20 quilômetros em linha reta, ignorando outras plantas pelo caminho, com o único objetivo de consumir pequenas porções de suas cascas ou folhas.
(foto: Mount Elgon Foundation)

Os elefantes do Monte Elgon já são famosos por extrair sal de cavernas que chegam a 150 metros de profundidade; o consumo é para fins nutricionais.
Não se trata apenas de automedicação
Ainda de acordo com a comunidade local, os elefantes não se limitam a se automedicar. Os moradores descrevem casos de tratamento de outros elefantes, conhecido como “alomedicação”, por vezes com notável complexidade.
Por exemplo, observou-se que as elefantas mastigam determinadas folhas, cascas ou raízes e depois misturam a massa com o leite para criar uma espécie de papa para seus filhotes.
Embora nem sempre fosse possível identificar a condição específica que estava sendo tratada, os moradores locais acreditam que as mães provavelmente estavam tratando problemas digestivos, como um bebê humano com refluxo.
Eles também relatam que essa mistura de planta e leite era frequentemente administrada independentemente de o filhote estar doente ou não, sugerindo que era utilizada mais como um agente preventivo.
(foto: Mount Elgon Foundation)

Farmacologia dos animais
Em estudos anteriores, pesquisadores descobriram que chimpanzés doentes e feridos procuram plantas com propriedades antibacterianas e anti-inflamatórias. Os membros do grupo adotam a abordagem de “nenhum chimpanzé deixado para trás” em relação à medicina, tratando uns aos outros após brigas ou encontros com armadilhas de caçadores.
Agora, alguns desses mesmos pesquisadores demonstram no novo estudo que o círculo de curandeiros se estende além dos primatas, alcançando os elefantes africanos. Aliás, a automedicação já tinha sido observada em elefantes asiáticos.
Na Ásia, os condutores e tratadores tradicionais de elefantes, conhecidos como mahouts, desempenharam um papel fundamental na descoberta dessa prática. Por passarem a vida inteira convivendo de perto com os seus elefantes, eles observaram que os animais recorriam à própria natureza para fins terapêuticos.
Há cerca de 1800 anos, o autor romano Cláudio Eliano escreveu em suas obras que os elefantes consumiam flores e óleo de oliveira após serem feridos por lanças. Apesar dessa observação, a ciência ocidental praticamente não expandiu seu conhecimento sobre o tema.
“Na maioria das vezes, as pessoas que vivem em contato próximo com os animais conhecem seus segredos há gerações”, diz Elodie Freymann, do Instituto Bernhard Nocht de Medicina Tropical. “Nosso trabalho como cientistas agora é começar a fazer as perguntas certas.”
Fonte: com informações de Stephen Luntz para a IflScience.






