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Brincadeira fortalece habilidades que a criança vai usar por toda a vida

A brincadeira é fundamental para o desenvolvimento infantil, apesar de ainda ser tratada como um simples passatempo ou distração. Por meio do lúdico, as crianças fortalecem conexões cerebrais e desenvolvem capacidades cognitivas.

Conforme a psicopedagoga Luciana Brites, pesquisas em neurociência mostram que, durante as atividades lúdicas, o cérebro permanece em intensa atividade. A brincadeira cria um ambiente rico para o desenvolvimento das funções como atenção, memória, controle inibitório e flexibilidade cognitiva — essas funções exigem estímulo e mediação para serem desenvolvidas.

Luciana cita um estudo da pesquisadora Adele Diamond — uma das principais especialistas do mundo em desenvolvimento infantil — que mostrou que brincar é fundamental para desenvolver habilidades como atenção, autocontrole e tomada de decisão. Além disso, atividades que misturam movimento, linguagem, interação social e imaginação ajudam a estimular áreas do cérebro ligadas ao planejamento e à aprendizagem.

Essa evidência é percebida por meio de brincadeiras como, por exemplo, brincar de casinha, onde a criança aprende a respeitar regras, sustentar uma narrativa e se adaptar quando a história muda, mobilizando habilidades como memória, atenção, autocontrole e flexibilidade cognitiva.

No pega-pega, uma tarefa complexa para um cérebro em desenvolvimento, ela precisa monitorar regras, espaço, movimento e interação. Em brincadeiras de construção, avalia o que não funcionou, reorganiza a estratégia e tenta novamente. “Esse processo é central para o amadurecimento das áreas cerebrais ligadas ao planejamento, à tomada de decisão e à aprendizagem”, explica a psicopedagoga.

Errar brincando também ensina

Sem a pressão do erro, a brincadeira se torna um espaço cognitivamente seguro para experimentar. Quando algo não sai como esperado, a criança avalia o que aconteceu e reorganiza sua ação. Assim, errar não representa fracasso, mas aprendizado. Esse processo favorece o desenvolvimento da resiliência, da tolerância à frustração e da adaptação.

Outro ponto é o brincar livre, visto que ambientes abertos, como a rua, oferecem imprevisibilidade. Terreno irregular, chuva inesperada e conflitos exigem adaptabilidade. “E a vida adulta cobra essa habilidade de lidar com o inesperado. Ao ar livre, a criança desenvolve equilíbrio, coordenação motora, inteligência emocional e regula suas emoções”, ressalta Luciana.

Ela lembra que existe uma relação entre a redução do brincar livre e o aumento das dificuldades escolares. A aprendizagem formal depende das funções executivas. Para ler, escrever, resolver problemas matemáticos ou sustentar a atenção, é preciso utilizar memória, atenção e controle inibitório.

No faz de conta, por exemplo, a criança sustenta a atenção, cria narrativas, negocia papéis e improvisa diante de mudanças na história. Nos jogos com regras, monitora ações, respeita combinados e ajusta estratégias. Nesse processo, habilidades como linguagem, resolução de problemas e concentração são estimuladas.

Do ponto de vista social, as brincadeiras permitem que a criança aprenda a ceder, liderar, esperar sua vez, lidar com perdas e monitorar o próprio comportamento.

(foto: Pressfoto / Magnific)

O que pode atrapalhar o brincar

Porém, com o excesso de telas, as crianças têm apresentado atraso da linguagem oral e redução do desenvolvimento motor fino. “Quando a tela ocupa o lugar da exploração ativa, a experiência se torna passiva. Não exige iniciativa, criatividade ou resolução de problemas”, explica a psicopedagoga.

O fato é que a superestimulação digital eleva o limiar de interesse da criança. O que é mais lento, calmo ou exige esforço pode parecer pouco atrativo ou cansativo. Isso afeta a disposição para aprender, a persistência e a tolerância.

Outro obstáculo é a hiperorganização da rotina, sendo que crianças com agendas lotadas não têm tempo livre real — o ócio favorece a criatividade, a imaginação e a reflexão.

“Uma agenda cheia reduz espaço para surpresa, exploração espontânea e autonomia. A autonomia também se constrói brincando, pois, na atividade livre, sem roteiro, ela decide o que fazer, como fazer e como resolver. A criança se torna protagonista das próprias escolhas e aprende autorresponsabilidade.”

Brincar constrói bases cognitivas, emocionais, sociais e comportamentais que acompanham o indivíduo ao longo da vida. Proteger o tempo de brincar não é uma concessão à diversão. É uma decisão baseada em evidências.

Fonte: com informações de Luciana Brites para a Brazil Health.   

Luciana Brites: psicopedagoga, CEO do Instituto NeuroSaber, mestre e doutoranda em distúrbios do desenvolvimento e autora do livro “Brincar é Fundamental”.

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