Tribo Quântica

o seu portal holístico

‘Robô budista’ desenvolvido no Brasil conversa com usuário e interpreta mudras

Pesquisadores brasileiros desenvolveram, em conjunto com cientistas internacionais, o primeiro robô com a aparência de um bodhisattva – ser iluminado que, segundo o budismo, permanece no mundo fenomênico para ajudar outras pessoas. A imagem será exposta em um museu na Coreia do Sul para interação com os visitantes.

Além de apreciar, o visitante poderá conversar com a estátua que responde a perguntas sobre o budismo. O robô é capaz, inclusive, de interpretar mudras feitos pelo visitante, os gestos simbólicos feitos com mãos e dedos durante práticas espirituais e religiosas orientais.

Para os pesquisadores, o protótipo sugere que robótica social, inteligência artificial e patrimônio cultural podem sustentar interações socialmente significativas entre humanos e máquinas em ambientes culturais e espirituais. Isso sem substituir experiências religiosas reais, mas aproximando o público a essas práticas e tradições.

Conforme André de Lima Salgado, da Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais, a equipe brasileira procurou reproduzir com máxima exatidão o formato de uma estátua budista do início do século 7 d.C., considerada “tesouro nacional” da Coreia.

O robô tem 93 centímetros de altura e permanece sentado, como a escultura original. O trabalho foi feito com impressão 3D baseada em escaneamento digital de alta resolução. Além dos brasileiros, o projeto tem participação de pesquisadores da Ontario Tech University, no Canadá, e da Hongik University, na Coreia do Sul.

(foto: Universidade Federal de Lavras)

Interpretação de mudras

Um detalhe importante é a capacidade do robô em reconhecer gestos simbólicos feitos pelas pessoas que interagem com ele. Quanto a isso, os pesquisadores tiveram que ser especialmente cuidadosos, porque os mudras têm formatos muito específicos e precisos nas tradições hinduístas e budistas.

Uma pequena variação pode transmitir um conteúdo completamente diferente. O reconhecimento de um gesto muito conhecido, como abhaya mudrā (feito com a mão erguida e espalmada, como símbolo de destemor, proteção e bênção), foi bem-sucedido em 75% dos casos.

Outra inovação foi o uso de um modelo CLIP — rede neural multimodal que aprende a associar imagens a textos, permitindo reconhecê-las, classificá-las ou descrevê-las — ajustado às imagens com elementos da iconografia budista, como templos e animais simbólicos.

“Os resultados mostraram desempenho elevado na identificação visual de símbolos culturalmente relevantes, alcançando 85,64% de acerto para arquitetura e 85,06% para animais associados ao contexto religioso”, relata Salgado, que, além de coordenar a equipe brasileira, é professor do Departamento de Ciência da Computação da UFLA.

A partir de comandos, o sistema do robô também pode produzir música compatível com o estado meditativo do usuário. A música é gerada por inteligência artificial com base em cânones budistas.

Projeto em desenvolvimento

A ideia de robôs capazes de interação social vem sendo explorada há cerca de 15 anos. Mas poucos estudos haviam investigado sistemas robóticos projetados para assumir características simbólicas em contextos místico-filosóficos ou religiosos.

Esses dispositivos diferem de humanoides tradicionais porque não tentam imitar pessoas, mas representar figuras espirituais, incorporando elementos iconográficos, vestimentas e sequências de comportamento ritual – o que exige cuidados culturais e éticos específicos.

O projeto estará em desenvolvimento até meados de 2026. Até lá, todas as equipes envolvidas trabalham para aperfeiçoar as estátuas, aprimorando códigos, softwares, arquitetura e adicionando novas funcionalidades.

Embora o projeto tenha sido concebido para enriquecer a experiência de visitantes em museus coreanos, os pesquisadores vislumbram aplicações da tecnologia em outras áreas. Uma linha futura envolve robôs sociais capazes de oferecer apoio emocional a agricultores.

Estudos apontam altos níveis de estresse e isolamento social em trabalhadores do campo. Os pesquisadores pretendem usar essa mesma tecnologia de robôs para oferecer suporte emocional e companhia aos trabalhadores rurais, auxiliando na saúde mental e bem-estar de comunidades agrícolas. 

Fonte: com informações de José Tadeu Arantes para a Agência FAPESP.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *