Aeróbico ou musculação: qual protege mais o coração de quem já tem risco cardiovascular
Por décadas, ao se falar em exercício para proteger o coração, a imagem era quase automática: caminhar, correr, nadar ou pedalar. A musculação ficava associada ao ganho de força, aumento da massa muscular ou estética. Essa divisão, porém, perdeu sentido com evidências do treino de força produzindo efeitos sobre fatores relacionados às doenças cardiovasculares.
Isso não significa que a musculação tenha substituído o exercício aeróbico ou que exista um vencedor nessa disputa. Conforme o cardiologista Carlos Alberto Pastore, na realidade, os dois provocam adaptações diferentes no organismo e podem se complementar.
Para uma pessoa com hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade ou outros fatores de risco, a pergunta deixou de ser “qual deles se deve fazer” e passou a ser “qual combinação é mais adequada” no caso específico desta pessoa.
O que o exercício aeróbico faz pelo coração?
Atividades aeróbicas envolvem grandes grupos musculares de maneira contínua e aumentam a demanda de oxigênio pelo organismo. Caminhada rápida, corrida, ciclismo e natação estão entre os exemplos mais conhecidos.
“Quando realizadas regularmente, melhoram a capacidade cardiorrespiratória e ajudam no controle da pressão arterial, do peso corporal e de diferentes fatores metabólicos”, explica o médico.
Existe ainda um indicador particularmente importante: o condicionamento cardiorrespiratório. Uma baixa capacidade física está fortemente associada a maior risco de doença cardiovascular e mortalidade, enquanto melhorar o condicionamento está relacionado a melhores desfechos de saúde. Por isso, o exercício aeróbico continua ocupando uma posição central nas recomendações de prevenção cardiovascular.
Mas o coração não funciona isoladamente. O organismo que ele precisa abastecer também depende de músculos metabolicamente ativos, capazes de utilizar glicose, manter força e preservar autonomia ao longo dos anos. “É aí que o treinamento de força ganha uma importância que durante muito tempo foi subestimada.”
Musculação também é exercício para o coração
Carlos Alberto explica que, ao fazer musculação, não se treina apenas bíceps, pernas ou costas. O músculo esquelético participa ativamente do metabolismo da glicose e da sensibilidade à insulina, e preservar massa muscular torna-se particularmente importante com o envelhecimento.
“O treinamento de força também pode contribuir para o controle da pressão arterial, da composição corporal e de outros fatores relacionados ao risco cardiovascular”, ressalta o médico.
Isso é especialmente relevante para pessoas com diabetes ou resistência à insulina. O músculo é um dos principais tecidos responsáveis pela utilização da glicose circulante, e aumentar ou preservar sua capacidade funcional ajuda o organismo a controlar melhor esse combustível.
A perda progressiva de massa e força muscular com a idade também não é apenas uma questão de mobilidade. Ela pode caminhar junto com pior saúde metabólica, maior fragilidade e redução da capacidade funcional. Portanto, pensar em prevenção cardiovascular sem pensar em musculatura tornou-se uma visão incompleta.
(foto: Magnific)

Então qual dos dois é melhor?
Para a maioria das pessoas, a resposta provavelmente é: os dois. De acordo com Carlos Alberto, estudos que comparam diferentes modalidades mostram que combinar exercícios aeróbicos e de força pode proporcionar benefícios complementares.
Enquanto o aeróbico tem forte impacto sobre a capacidade cardiorrespiratória, o treinamento resistido acrescenta estímulos importantes para força, massa muscular e metabolismo.
Uma meta-análise publicada em 2025, por exemplo, encontrou melhora da aptidão cardiorrespiratória com diferentes modalidades de exercício em pessoas com doença cardiovascular, reforçando o valor de programas estruturados e individualizados.
As recomendações internacionais seguem essa lógica. De maneira geral, adultos devem acumular semanalmente atividade aeróbica moderada ou vigorosa e incluir exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana.
“Isso, porém, é uma orientação populacional. Para quem já apresenta risco cardiovascular elevado ou uma doença cardíaca estabelecida, a prescrição precisa ser individualizada”, orienta o médico.
Durante exercícios muito intensos, especialmente quando há retenção da respiração durante o esforço, podem ocorrer elevações importantes da pressão arterial. A carga, o número de repetições, os intervalos, a técnica e a progressão precisam ser ajustados ao indivíduo com avaliação adequada e prescrição compatível com a condição clínica.
Idade, pressão arterial, diabetes, histórico de infarto ou AVC, presença de arritmias, uso de medicamentos e nível de condicionamento influenciam a maneira como o organismo responde ao esforço. Portanto, antes de iniciar a prática de exercícios físicos, é preciso a avaliação de um médico.
Fonte: com informações de Carlos Alberto Pastore para a Brazil Health.
Carlos Alberto Pastore (CRM 24264 | RQE 69372): cardiologista e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).






