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Carnaval, excessos e saúde mental: o que está em jogo?

O Carnaval mobiliza milhões de pessoas em um ambiente de alta estimulação sensorial, calor intenso, privação de sono e ampliação do consumo de álcool. A ideia de que “é só uma vez por ano” opera como licença simbólica para ultrapassar limites que, em outros períodos, seriam preservados.

Entretanto, a ingestão de grande quantidade em curto espaço de tempo eleva rapidamente a concentração de álcool no sangue, comprometendo julgamento, coordenação motora e capacidade de avaliar riscos.

As consequências vão além da ressaca física. Aumentam a vulnerabilidade a acidentes, conflitos interpessoais, violência, exposições sexuais desprotegidas e episódios de apagão de memória, além de impactos emocionais nos dias seguintes.

Fatores ambientais típicos da folia potencializam esse quadro. A pressão para acompanhar o ritmo do grupo também enfraquece decisões previamente estabelecidas, reduzindo a percepção de limite e ampliando a impulsividade.

Regulação emocional

Do ponto de vista psicológico, o uso de álcool e outras drogas não está apenas associado à busca por prazer. Muitas vezes, funciona como estratégia de regulação emocional.

Conforme o psicólogo Vitor Friary, a substância pode servir como atalho para aliviar ansiedade social, insegurança corporal, sensação de inadequação ou solidão. “O alívio imediato reforça o comportamento, criando um ciclo que envolve estímulo, consumo, consequência e culpa”, explica.

Quando entram as drogas recreativas, o cenário torna-se ainda mais imprevisível. A combinação de substâncias, frequentemente de procedência desconhecida, somada ao desgaste físico e à privação de sono, amplia o risco de reações adversas.

O problema não se restringe ao evento isolado. Mesmo que o padrão ocorra poucas vezes ao ano, os efeitos sobre a saúde mental e os vínculos podem ser significativos.

Planejamento

A prevenção no Carnaval não depende de discursos proibitivos, mas de estratégias concretas. Definir previamente limites objetivos, como número de doses, intervalos entre elas e decisão de não misturar substâncias, aumenta a chance de manter o controle em situações de alta estimulação.

Antecipar respostas para situações de pressão social e combinar apoio entre amigos também fortalece a capacidade de decisão.

A lógica da redução de danos parte do reconhecimento de que o consumo pode acontecer, mas busca diminuir riscos associados a ele.

Alternar bebida alcoólica com água, evitar consumo em jejum, respeitar sinais de exaustão, não usar substâncias sozinho e planejar o retorno para casa são medidas simples, porém eficazes.

Cuidar do corpo é também preservar a saúde mental. Hidratação, alimentação adequada, pausas e sono influenciam diretamente o autocontrole e a tomada de decisão. “Ter um plano de saída e reconhecer o momento de encerrar a participação na festa são estratégias de proteção, não de fracasso”, ressalta Friary.

De acordo com ele, o Carnaval pode ser vivido com intensidade, mas sem que isso implique negligenciar limites pessoais.

“Consciência, informação qualificada e planejamento permitem que a experiência termine de forma íntegra, sem que a celebração se transforme em prejuízo duradouro para o corpo, a mente e as relações”, conclui. 

Fonte: com informações de Vitor Friary para o Brazil Health.

Vitor Friary, é psicólogo e fundador do Centro de Mindfulness no Brasil.

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