Natal em tempos de polarização
Durante muito tempo, o Natal foi um momento íntimo, vivido em família, marcado pela partilha e pela reflexão sobre a própria vida, as perdas e as conquistas.
Era um tempo de pausa e de consciência.
Hoje, essa reflexão ultrapassou o espaço do lar. Vivemos em uma sociedade global, fortemente influenciada pelas mídias, que ampliam nossa percepção do mundo e intensificam tensões.
O resultado é um cenário cada vez mais dividido e desigual.
No Brasil, essa realidade se revela no cansaço profundo de grande parte da população.
Não se trata apenas de dificuldades materiais, mas de um esgotamento emocional e moral, causado pela sensação constante de injustiça e pela falta de perspectivas. Esse quadro deveria despertar empatia e responsabilidade coletiva.
Ainda assim, enquanto muitos se sentem abatidos, outros parecem satisfeitos. Em muitos casos, essa satisfação não nasce de avanços reais ou compartilhados, mas da indiferença diante da dor alheia. O sofrimento do outro é ignorado ou relativizado, o que fragiliza os laços sociais.
Surge, então, uma pergunta necessária: como celebrar quando tantos enfrentam dificuldades?
Que tipo de segurança se constrói sobre a exclusão?
Discursos autoritários prometem proteção, mas frequentemente aprofundam desigualdades e enfraquecem o senso de comunidade.
Esse afastamento revela uma forma de alienação social. Ao deixar de reconhecer no outro alguém que compartilha da mesma realidade, transformamos semelhantes em adversários e naturalizamos a exclusão — uma exclusão que recai sobre os próprios iguais.
Nesse contexto, o conceito de inclusão se distorce: exclui-se quem pensa diferente e inclui-se apenas quem concorda. Mas pode haver crescimento verdadeiro quando todas as vozes são iguais?
Diante disso, cabe perguntar se a sociedade conseguirá se unir pelo diálogo antes que a dor coletiva imponha essa união.
O amor é uma escolha diária, expressa em escuta, respeito e responsabilidade.
O ódio, ao contrário, se espalha com facilidade e divide.
À luz do Natal, este texto é um convite à ação: desacelerar, refletir, reconhecer a dor do outro e reconstruir pontes.
Porque não há celebração possível enquanto a felicidade de alguns se sustentar sobre o sofrimento de muitos.
Fonte: Bernadete Freire Campos, escritora e palestrante em Neurociência, Filosofia, PNL e Linguagem.






