Tribo Quântica

o seu portal holístico

Entre o consultório e a vida: aceitar ou não convites?

por Bernadete Freire Campos

Uma pergunta ainda provoca dúvidas entre profissionais da Psicologia:

O psicólogo pode aceitar convites para casamentos, aniversários, formaturas, velórios ou outros momentos significativos da vida de pessoas que acompanha em psicoterapia?

Durante muito tempo, predominou na formação profissional a orientação de manter uma separação rigorosa entre a relação clínica e qualquer contato social. Essa cautela tem razões legítimas: preservar o sigilo, evitar interferências no processo terapêutico e proteger a pessoa atendida.

Entretanto, o Código de Ética do Psicólogo não estabelece uma proibição absoluta para a participação nesses eventos. O que ele exige é responsabilidade profissional e o cuidado de não estabelecer relações que possam interferir negativamente nos objetivos do serviço prestado.

Por isso, talvez a resposta mais ética não seja simplesmente “sim” ou “não”.

A resposta é: depende.

Depende da história construída durante a psicoterapia, do momento em que o processo se encontra, do significado daquele convite e dos possíveis efeitos que a presença — ou a ausência — do profissional poderá produzir na pessoa atendida e no vínculo terapêutico.

Em alguns casos, especialmente em processos longos, consistentes e bem elaborados, o convite pode representar uma manifestação de reconhecimento, respeito ou gratidão, sem causar prejuízo ao trabalho clínico.

Em outros, a presença do psicólogo pode ampliar expectativas, alimentar idealizações, confundir os limites da relação ou interferir negativamente na psicoterapia. Nessas situações, a recusa será necessária.

Mas a recusa automática também merece reflexão.

Dependendo da história emocional da pessoa atendida, um “não” apresentado sem cuidado pode ser vivido como rejeição, abandono ou repetição de experiências dolorosas anteriores.

Isso não significa que o convite deva ser aceito para evitar frustrações. Significa apenas que tanto a aceitação quanto a recusa produzem efeitos e precisam ser pensadas, comunicadas e, quando necessário, trabalhadas durante a própria psicoterapia.

Esse é o centro da questão: a ética dos convites não se resume à presença ou à ausência do psicólogo. Ela envolve a responsabilidade pelas consequências que cada decisão poderá produzir.

Também é importante lembrar que nem toda pessoa que busca psicoterapia apresenta um transtorno mental. Muitas procuram acompanhamento para ampliar o autoconhecimento, amadurecer emocionalmente, enfrentar situações difíceis ou desenvolver novas formas de viver e se relacionar.

Embora exista uma assimetria técnica e profissional, a psicoterapia continua sendo um encontro entre seres humanos. É justamente por isso que algumas situações não podem ser resolvidas por respostas automáticas.

Essa discussão tornou-se ainda mais complexa na era digital. Psicólogos compartilham aspectos de sua vida nas redes sociais, concedem entrevistas e se tornam conhecidos para além do consultório. Em alguns casos, a pessoa atendida conhece mais da rotina do profissional pela internet do que conheceria durante um breve encontro em uma cerimônia.

Os desafios éticos, portanto, já não se limitam à convivência presencial. Estão também nas novas formas de exposição, comunicação e interação proporcionadas pela tecnologia.

Nada disso modifica um princípio essencial: o sigilo profissional permanece inegociável. Em qualquer contexto, a identidade, a privacidade e a dignidade da pessoa atendida precisam ser preservadas.

Porque a ética não existe para impedir encontros humanos.

Ela existe para proteger pessoas.

A ética não está na resposta pronta, mas na capacidade de avaliar as consequências de cada decisão.

Por isso, compreender quando a proximidade favorece o processo terapêutico e quando o compromete talvez seja um dos maiores desafios da Psicologia contemporânea.

Algumas situações exigem regras.

Outras exigem discernimento.

E é justamente nesse equilíbrio entre princípios, contexto e responsabilidade que a ética se torna verdadeiramente humana.

Bernadete Freire Campos (CRP 14/00586-0): psicóloga; escritora e palestrante em Neurociência, Filosofia, PNL e Linguagem.

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *