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Os tempos turbulentos do nascimento de Jesus

Todos os anos, milhões de pessoas cantam a bela canção natalina Noite Silenciosa, com seu verso “tudo está calmo, tudo está brilhante”.

Todos sabemos que a história do Natal é uma história de paz e alegria, e isso permeia nossas festividades, reuniões familiares e a troca de presentes. Inúmeros cartões de Natal retratam a Sagrada Família — sob a luz das estrelas, em um estábulo pitoresco, aconchegada em uma pequena vila tranquila.

Mas, conforme a historiadora especialista em origens cristãs, Joan Taylor, essa canção soa estranhamente errada em termos das circunstâncias reais na época do nascimento de Jesus. Ela é a autora do livro “Menino Jesus: crescendo como judeu em tempos turbulentos” — o livro não foi lançado em português.

Joan explica que as próprias histórias dos Evangelhos falam de deslocamento e perigo. Por exemplo, uma “manjedoura” era, na verdade, um cocho fétido onde os jumentos se alimentavam. Um bebê recém-nascido deitado em uma manjedoura era um sinal profundo dado aos pastores, que protegiam seus rebanhos à noite de animais selvagens perigosos (Lucas 2:12).

Quando essas histórias são analisadas em seus elementos essenciais e inseridas em um contexto histórico mais amplo, os perigos se tornam ainda mais evidentes.

(imagem: Getty Images)

Jesus nasceu em época de medo e revolta contra o domínio de Roma, marcado por violência e massacres

Tomemos como exemplo o Rei Herodes. Ele surge nas histórias do nascimento de Jesus sem qualquer apresentação, e presume-se que os leitores saibam que ele era uma má influência. Mas Herodes foi nomeado pelos romanos como seu governante cliente de confiança da província da Judeia. Ele permaneceu no cargo por muito tempo porque, em termos romanos, estava fazendo um trabalho razoável.

A família de Jesus afirmava ser da linhagem dos reis da Judeia, descendente de Davi, e esperava-se que gerasse um futuro governante. O Evangelho de Mateus começa com a genealogia completa de Jesus, tamanha era a importância dela para a sua identidade.

Mas, alguns anos antes do nascimento de Jesus, Herodes profanou o túmulo de Davi e o saqueou. Como isso afetou a família e as histórias que contariam a Jesus? O que eles pensavam dos romanos?

Um tempo de medo e revolta

Quanto à atitude de Herodes em relação a Belém, lembrada como a cidade natal de Davi, as coisas ficam ainda mais perigosas e complexas.

Quando Herodes foi nomeado pela primeira vez, foi deposto por um governante rival apoiado pelos partos (inimigos de Roma), que era amado por muitos habitantes locais. Herodes foi atacado por esse povo perto de Belém.

Ele e suas tropas revidaram e massacraram os atacantes. Quando Roma derrotou o rival e trouxe Herodes de volta, ele construiu um memorial ao seu massacre vitorioso em um local próximo que chamou de Heródio, com vista para Belém. Como isso afetou a população local?

Belém (entre 1898 e 1914) com Heródio no horizonte: memorial a um massacre. (imagem: coleção Matson via Wikimedia Commons)

Longe de ser uma vila pacata, Belém era uma cidade tão importante que a construção de um grande aqueduto levou água ao seu centro. Temendo Herodes, a família de Jesus fugiu de sua casa, mas desde o início estava do lado errado de Roma.

Eles não estavam sozinhos em seus medos ou em sua atitude em relação aos colonizadores. Os eventos que se desenrolaram, conforme narrados pelo historiador Flávio Josefo, do século I, mostram uma nação em aberta revolta contra Roma pouco depois do nascimento de Jesus.

Quando Herodes morreu, milhares de pessoas tomaram o templo de Jerusalém e exigiram libertação. O filho de Herodes, Arquelau, massacrou-os. Vários aspirantes a reis e governantes revolucionários da Judeia tomaram o controle de partes do país, incluindo a Galileia.

Foi nessa época, no Evangelho de Mateus, que José trouxe sua família de volta do refúgio no Egito — para esta Galileia independente e para uma vila ali, Nazaré.

Mas a independência da Galileia não durou muito. As forças romanas, sob o comando do general Varo, marcharam da Síria com forças aliadas, destruíram a cidade vizinha de Séforis, incendiaram inúmeras aldeias e crucificaram um grande número de rebeldes judeus, sufocando por fim as revoltas.

Arquelau — uma vez oficialmente empossado como governante — deu continuidade a esse reinado de terror.

O nascimento de Jesus para hoje

Certamente, o contexto mais amplo da história do nascimento e da infância de Jesus se mostra tão relevante hoje, em nossos tempos de fragmentação e “alterização”, onde tantos se sentem oprimidos pelo poder inflexível deste mundo.

De fato, muitos estão refletindo essa relevância contemporânea. De muitas maneiras, o verdadeiro nascimento de Jesus não é simplesmente um nascimento de paz e alegria, mas sim um nascimento de luta — e, ainda assim, de esperança misteriosa.

Fonte: com informações de Joan Taylor para o The Conversation.

Joan Taylor: Professora Emérita de Origens Cristãs e Judaísmo do Segundo Templo, King’s College de Londres; especialista em Jesus, Cristianismo Primitivo, Manuscritos do Mar Morto, arqueologia e estudos de gênero.

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