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O luto não tem idade: lamentar é preciso

Por Bernadete Freire Campos

O vínculo com meu pai — meu primeiro exemplo de homem — foi profundo, ambivalente e amoroso, construído ao longo de mais de seis décadas de convivência. Relações longas não são simples; elas se enraízam na identidade, atravessam quem somos e permanecem mesmo quando a presença física se vai.

Sua morte não seguiu o curso esperado. Um erro médico interrompeu o fluxo natural da vida, acrescentando ao luto camadas de culpa, questionamentos e a dolorosa busca por explicações. A perda abrupta desorganiza não apenas a emoção, mas também o senso de segurança e continuidade.

Somou-se a isso a pressão social para “superar” rapidamente a perda, como se a idade dele — e a minha etapa de vida — justificassem uma despedida apressada. Essa expectativa evidencia a dificuldade de reconhecer a singularidade de um luto inaugural vivido por uma filha madura, primogênita, profissionalmente ativa, que segue cuidando da mãe viúva e de muitos idosos em seu trabalho clínico.

A morte do pai inaugura um novo lugar existencial: encerra a presença da geração acima e confronta, de forma direta, a própria finitude. O futuro se estreita e ganha contornos concretos.

Há ainda um equívoco frequente quando esse luto é vivido por uma psicóloga: confundir lamentar com não ter elaborado a perda. Lamentar não é falhar; é necessário. A lamentação é parte essencial do processo de luto, pois permite simbolizar a ausência e integrá-la à própria história.

Nem todo luto exige intervenção psicológica. O luto considerado normal — ainda que intenso e prolongado — pertence à experiência humana. O luto patológico é outra condição, marcada por paralisação persistente e sofrimento que não se transforma. Dor não é patologia.

Por isso, esse luto não pede pressa, pede elaboração. Não aceita atalhos. Exige tempo para integrar amor e ambivalência, saudade e revolta, gratidão e ausência. Lamentar não é ficar preso ao passado; é o caminho possível para seguir adiante sem negar o que foi vivido.

Bernadete Freire Campos: escritora e palestrante em Neurociência, Filosofia, PNL e Linguagem. @bernadetefcampos

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