Provocar em tom de brincadeira pode se tornar prejudicial
Imagine a cena: um grupo de meninas está sentado à mesa no refeitório quando um menino passa. Uma delas se vira para a outra e diz, rindo: “Ah, esse não é o seu namorado? Você devia ir lá beijá-lo!”
Outra garota intervém: “É isso aí, dá um beijo nele!” A garota em questão responde: “Para com isso. Não quero que ele ouça!” e sorri, mas fica vermelha. Suas amigas continuam, fazendo barulhos de beijo e rindo. As outras do grupo também riem.
Como a menina deve interpretar esse comportamento? Os provocadores estavam sendo brincalhões ou a estavam provocando de forma agressiva?
A resposta para essa pergunta é: depende. Provocar é um comportamento comum, porém complexo, que pode ter funções pró-sociais, como criar laços e sinalizar proximidade relacional. Mas também pode ter funções antissociais e prejudicar a pessoa alvo.
Limite
Um estudo feito no Canadá mostra que as brincadeiras podem começar como uma forma de diversão, mas “cruzar a linha” e se tornarem prejudiciais.
Para determinar o que passa do limite, os jovens consideram alguns fatores-chave. A linguagem corporal, as expressões faciais e o tom de voz do provocador se combinam para indicar o significado por trás da provocação.
Dentro deste contexto, a intenção é importante, e um provocador cuja intenção seja claramente lúdica tem menos probabilidade de ultrapassar os limites.
Com base no estudo, os pesquisadores sugerem algumas reflexões sobre os limites das brincadeiras. Confira:
- Um bom ponto de partida para brincadeiras é quando quem brinca tem um relacionamento positivo e próximo com a pessoa que está sendo provocada. A pessoa que está sendo provocada deve se sentir à vontade o suficiente para pedir que a brincadeira pare, se quiser; e então a brincadeira deve parar imediatamente.
- As brincadeiras não devem envolver partes da identidade da pessoa alvo nem abordar assuntos sensíveis. Por isso, ter um relacionamento próximo e positivo é um bom pré-requisito para que quem brinca saiba quais assuntos são “proibidos”.
- Devemos sempre ter cuidado ao fazer brincadeiras na presença de outras pessoas, pois isso pode agravar o problema — mesmo quando essas pessoas são outros amigos.
- Observe a reação da pessoa que você está provocando. Muitas vezes, as brincadeiras são recíprocas.
- Provocações repetidas — mesmo sobre assuntos aparentemente inofensivos — têm maior probabilidade de serem percebidas como prejudiciais.
Por fim, mesmo que a intenção da brincadeira seja apenas brincar, ser alvo de provocações ainda pode magoar. Esteja preparado para se retratar e buscar soluções para o relacionamento caso a brincadeira ultrapasse os limites e cause danos a alguém.
Fonte: com informações de Naomi Andrews e Molly Dawes para o The Conversation.
Naomi Andrews, professora associada de Estudos da Criança e do Jovem da Universidade Brock, no Canadá.
Molly Dawes, professora associada de Psicologia Educacional da Universidade da Carolina do Sul, nos EUA.






